A imunoterapia é um tipo de tratamento que recorre a medicamentos que usam o próprio sistema imunitário do paciente para ajudar a combater o cancro. Este tipo de terapia é cada vez mais popular no tratamento de tumores sólidos em adultos; contudo, o sucesso em crianças com cancro não tem atingido os mesmos resultados.
“Isso explica-se de uma forma muito simples: o cancro em adultos não é igual ao cancro em crianças”, diz Allison O’Neill, do Dana-Farber/Boston Children’s Cancer and Blood Disorders Center, nos Estados Unidos.
“A maioria dos tumores sólidos em crianças é menos complexa do que nos adultos – isso fornece aos médicos menos alvos para o sistema imunitário reconhecer, o que torna os medicamentos de imunoterapia menos eficazes em cancros infantis”.
Mas há um tipo de cancro diagnosticado em crianças que pode mudar o rumo desta história – o carcinoma hepatocelular, uma forma rara e agressiva de cancro de fígado infantil que partilha semelhanças suficientes com a sua contraparte adulta para torná-la uma “boa doença” para estudar tratamentos de imunoterapia.
Entender como funciona a imunoterapia
Quando uma criança está com gripe, por exemplo, o seu sistema imunitário mobiliza-se para combater a doença: as células imunitárias, conhecidas como células T, reconhecem e destroem os vírus, as bactérias e outras substâncias estranhas que consideram prejudiciais.
O sistema imunitário também tenta combater a cancro, mas isso é um processo mais complicado, uma vez que algumas células cancerígenas são capazes de escapar às células imunes ou até mesmo impedi-las de funcionar corretamente.
A imunoterapia tenta ajudar o sistema imunitário a funcionar melhor para identificar e eliminar as células cancerígenas. Diferentes fármacos de imunoterapia realizam isso de maneiras diferentes: alguns bloqueiam certos pontos de verificação no sistema imunitário, permitindo que as células imunitárias respondam ao cancro com mais força; outros aumentam a capacidade das células T de combater a doença oncológica; e outros melhoram o sistema imunitário por meio de vários mecanismos.
Duas investigações que podem ajudar a encontrar respostas
O regulador de saúde norte-americano (FDA) já aprovou medicamentos de imunoterapia para tratar vários tipos de cancro em adultos – também por isso, neste momento, Allison O’Neill espera que duas investigações em andamento “abram as portas para o uso da imunoterapia no carcinoma hepatocelular infantil”.
O primeiro, um teste de pacientes pediátricos com carcinoma hepatocelular, visa aprender mais sobre como o medicamento pembrolizumab – já aprovado pela FDA em adultos – pode permitir que as células imunitárias reconheçam melhor os tumores hepáticos em pacientes pediátricos.
Este estudo também permitirá uma exploração aprofundada do ambiente imunitário de tumores pediátricos de carcinoma hepatocelular e uma análise de como as células imunes circulantes e associadas ao tumor mudam em resposta ao tratamento com este fármaco.
O segundo estudo procura estudar a segurança de um recetor de células T manipulado capaz de reconhecer uma proteína (chamada alfa-fetoproteína) produzida por tumores de carcinoma hepatocelular e hepatoblastoma.
Esta nova terapia com células T está atualmente a ser estudada em adultos e, pela primeira vez, será também estudada em pacientes pediátricos – numa primeira fase serão analisadas adolescentes com 12 anos ou mais, mas, em última análise, poderão ser analisadas crianças e adolescentes com idades entre 1 a 21 anos.
“Estas investigações oferecerão uma visão significativa do cenário imunitário destes tumores difíceis de tratar. Não tenho quaisquer dúvidas de que elas nos ajudarão a aprender mais sobre o papel da imunoterapia no cancro do fígado pediátrico”.
Fonte: Children’s Hospital