Tratar cancro em crianças não é uma versão reduzida da oncologia em adultos. A biologia é diferente desde o início — e isso muda a forma como se descobrem alvos terapêuticos, como se diagnostica a doença e como se desenham tratamentos.
É esta ideia que orienta o trabalho de Charles W. M. Roberts, do St. Jude Children’s Research Hospital (EUA), que defende que compreender as regras próprias do cancro pediátrico é essencial para criar terapias realmente eficazes.
Uma doença diferente desde a origem
Segundo Roberts, muitos cancros em adultos surgem após anos de dano acumulado nas células, influenciado por fatores como exposição a carcinogénios, radiação ultravioleta e hábitos de vida. Esse processo leva, ao longo do tempo, à acumulação de muitas mutações.
No cancro pediátrico, o cenário tende a ser outro: os tumores podem aparecer quando processos normais do desenvolvimento “saem do caminho”. Ou seja, há, em geral, menos mutações, mas elas podem ser suficientes para desviar o desenvolvimento celular e dar origem ao tumor.
Porque é que a medicina de precisão expôs um problema
Durante muito tempo, a quimioterapia tradicional foi usada de forma transversal, porque ataca células que se dividem rapidamente, independentemente do que está a causar o crescimento do tumor. No entanto, além de nem sempre ser curativa, pode deixar efeitos secundários de curto e longo prazo.
Com a evolução para terapias mais dirigidas, baseadas em mecanismos biológicos, tornou-se mais evidente que muitos tratamentos pensados para adultos não funcionam bem em crianças, porque os mecanismos por trás da doença podem ser diferentes.
O texto refere que 55% das mutações genéticas observadas em cancros pediátricos não aparecem em cancros de adultos, o que limita a ideia de “adaptar” terapias desenvolvidas primeiro para adultos.
Porque algumas imunoterapias não resultam da mesma forma
Os inibidores de checkpoints imunitários funcionam melhor quando os tumores têm muitas alterações genéticas que o sistema imunitário consegue reconhecer como “estranhas”. Em muitos cancros de adultos isso acontece, mas em tumores pediátricos — com menos mutações — há menos “sinais” para o sistema imunitário detetar. Por isso, estes medicamentos têm mostrado benefício limitado em crianças.
Ainda assim, existe sobreposição: quase 45% das mutações observadas em cancro pediátrico também aparecem em adultos, o que permite aprendizagens em ambos os sentidos.
Um exemplo de aprendizagem “de ida e volta”
O texto destaca o trabalho do laboratório de Roberts em tumores rabdoides malignos pediátricos, onde uma alteração no gene SMARCB1 está associada à doença. A investigação deste grupo ajudou a compreender como alterações no complexo SWI/SNF mudam a expressão génica e programas normais do desenvolvimento celular.
Esse conhecimento contribuiu para compreender cancros de adultos com alterações semelhantes e apoiou a aprovação, pela FDA, de um inibidor de EZH2 para tratar cancros com deficiência de SMARCB1 em crianças e adultos.
Novas frentes terapêuticas
O texto descreve várias abordagens que estão a ganhar força:
- Degradação dirigida de proteínas: em vez de bloquear proteínas nocivas, alguns medicamentos marcam essas proteínas para serem “eliminadas” pela maquinaria normal da célula (ex.: PROTACs), criando novas possibilidades quando o alvo é difícil de atingir.
- Imunoterapia mais específica: apesar das limitações dos checkpoints, estratégias como CAR T-cells já tiveram impacto relevante em leucemias B pediátricas em recidiva, conseguindo remissões duradouras em casos muito difíceis.
- Terapias baseadas em ARN e reprogramação epigenética: ferramentas que podem modular a expressão génica e silenciar sinais que alimentam o cancro com maior precisão.
Um obstáculo real: economia e desenvolvimento de medicamentos
Mesmo quando a biologia aponta caminhos promissores, o desenvolvimento de novos fármacos em oncologia pediátrica enfrenta um problema estrutural: o cancro pediátrico representa uma parte pequena dos diagnósticos, com menor retorno comercial. Isso reduz o incentivo para criar terapias dirigidas a doenças raras em crianças.
Para responder a essa barreira, o texto refere que o St. Jude investiu em iniciativas internas para apoiar desenvolvimento pré-clínico, validação de alvos e ensaios iniciais, garantindo que ideias promissoras podem chegar a fases de teste em humanos.
A mensagem central
Quando as terapias são desenhadas especificamente para a biologia do cancro pediátrico, aumenta-se a probabilidade de melhorar resultados para crianças — e, muitas vezes, geram-se descobertas que também ajudam adultos. O desafio é transformar esse conhecimento em tratamentos acessíveis e testados com a rapidez e o rigor de que as crianças precisam.
Fonte: St Jude Research