A análise das características moleculares dos tumores está a transformar a forma como o cancro pediátrico é diagnosticado. Investigadores do St. Jude Children’s Research Hospital (EUA) têm utilizado técnicas como a análise da metilação do ADN, a sequenciação genética e ferramentas de inteligência artificial para distinguir tumores que podem parecer semelhantes ao microscópio, mas que apresentam características biológicas e respostas ao tratamento muito diferentes.
Tradicionalmente, a classificação dos tumores baseava-se sobretudo na sua aparência e estrutura observadas ao microscópio. No entanto, alguns tumores com características semelhantes comportam-se de forma muito diferente, enquanto outros não se enquadram claramente nas categorias existentes.
A análise molecular permite ultrapassar algumas destas limitações e chegar a diagnósticos mais específicos, contribuindo para selecionar tratamentos mais adequados para cada criança.
Tumores semelhantes podem ser doenças diferentes
Um dos exemplos apresentados pelos investigadores são os tumores anteriormente classificados como tumores neuroectodérmicos primitivos do sistema nervoso central (SNC-PNET). Esta designação agrupava tumores com aparência semelhante, apesar de as crianças apresentarem evoluções clínicas diferentes.
Através da análise dos padrões de metilação do ADN — pequenas alterações químicas que influenciam a atividade dos genes —, os investigadores verificaram que muitos destes tumores pertenciam, na realidade, a outras categorias.
Um estudo publicado na revista Cell mostrou que vários tumores classificados como SNC-PNET eram gliomas de alto grau. Esta distinção pode ter consequências importantes no tratamento: enquanto os primeiros eram habitualmente tratados com irradiação cranioespinal, os gliomas de alto grau podem necessitar apenas de radioterapia localizada. Um diagnóstico mais preciso pode, assim, evitar tratamentos mais intensivos do que o necessário e os respetivos efeitos a longo prazo.
Meduloblastomas também podem ser divididos em diferentes grupos
O perfil molecular permitiu ainda compreender melhor o meduloblastoma, um dos tumores cerebrais pediátricos mais frequentes.
Em vez de uma única doença, os investigadores identificaram quatro grupos moleculares — WNT, Sonic Hedgehog, Grupo 3 e Grupo 4 — com características distintas. O St. Jude Children’s Research Hospital (EUA) desenvolveu posteriormente um ensaio clínico que utilizou estes grupos moleculares para ajudar a orientar o tratamento.
Uma abordagem semelhante foi aplicada aos gliomas de alto grau. Investigação publicada na revista Neuro-Oncology mostrou que tumores aparentemente semelhantes ao microscópio podem corresponder a doenças biologicamente diferentes. Esta distinção é particularmente importante quando existem terapêuticas dirigidas às alterações genéticas que estão na origem de determinados tumores.
Uma análise ao sangue poderá ajudar a evitar algumas biópsias
Os investigadores estão também a estudar formas menos invasivas de obter informação molecular sobre os tumores.
No tumor de Wilms, o tumor renal pediátrico mais frequente, está a ser investigada a possibilidade de analisar ADN tumoral circulante (ctDNA) através de uma amostra de sangue. O objetivo é perceber se esta informação poderá ajudar a identificar quais as crianças que necessitam de tratamentos mais intensivos sem recorrer inicialmente a uma biópsia cirúrgica.
Nos tumores cerebrais, foi desenvolvida uma ferramenta de inteligência artificial denominada M-PACT, que analisa o ctDNA presente no líquido cefalorraquidiano. Segundo o estudo publicado na revista Nature Cancer, esta abordagem conseguiu distinguir situações de recaída de segundos tumores, uma diferença importante para decidir o tratamento seguinte.
Apesar dos avanços, continuam a existir tumores que não correspondem a nenhuma das categorias conhecidas. Nesses casos, os especialistas procuram caracterizar o tumor da forma mais completa possível e definir, em conjunto, a estratégia terapêutica mais adequada.
O objetivo destas novas ferramentas é tornar o diagnóstico do cancro pediátrico cada vez mais preciso, permitindo aproximar cada criança do tratamento mais adequado às características específicas do seu tumor.
Fonte: St. Jude Research