Um estudo recente revelou que a insegurança alimentar pode influenciar diretamente o crescimento de tumores em crianças com cancro pediátrico, nomeadamente no neuroblastoma — um dos tipos de cancro mais agressivos na infância.
Apesar dos avanços nos tratamentos, as taxas de sobrevivência continuam mais baixas entre crianças de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos. Até agora, sabia-se que existiam desigualdades, mas a ciência ainda não tinha conseguido explicar como é que as condições sociais influenciavam a própria biologia dos tumores.
Investigadores da University of Michigan Health C.S. Mott Children’s Hospital (EUA) criaram o primeiro modelo experimental para estudar este fenómeno. Liderada por Erika Newman, a equipa desenvolveu um modelo em ratinhos com neuroblastoma, simulando a insegurança alimentar através da alteração imprevisível do acesso à alimentação. Esta estratégia procurou reproduzir o impacto real da instabilidade alimentar vivida por muitas famílias.
O estudo, publicado na revista Communications Biology, utilizou modelos validados de neuroblastoma para analisar como a insegurança alimentar afeta o crescimento do tumor e a resposta biológica do organismo.
Os resultados mostraram que os ratinhos sujeitos a insegurança alimentar desenvolveram tumores maiores e mais volumosos. Além disso, apresentaram níveis elevados de corticosterona (uma hormona do stress) e maior ativação de mecanismos de sobrevivência tumoral.
Segundo a equipa, esta descoberta oferece uma nova perspetiva sobre como os fatores sociais, como a pobreza e o acesso irregular a alimentos, podem ficar “marcados” no corpo e influenciar a progressão do cancro pediátrico.
Este trabalho lança as bases para novas investigações sobre como intervenções na área da nutrição e do bem-estar emocional podem ajudar a melhorar a resposta aos tratamentos.
A investigadora principal sublinha:
“O acesso a alimentos, a estabilidade e a segurança não são apenas pano de fundo. São parte da biologia que temos de enfrentar se queremos garantir igualdade nos resultados.”
Este estudo surge num momento em que se discute nos Estados Unidos possíveis interrupções nos programas públicos de apoio alimentar, como o SNAP. Os autores reforçam, por isso, a importância de políticas que assegurem acesso contínuo a alimentação adequada, especialmente para crianças com doenças graves.
Defendem ainda que os cuidados de saúde, sobretudo em oncologia pediátrica, devem incluir a avaliação sistemática de fatores sociais como a insegurança alimentar, garantindo que se tratam não só as causas biológicas, mas também os fatores sociais que podem agravar a doença.
Fonte: Medical Xpress