Search

Sobreviver ao cancro pediátrico é o início de um novo desafio: cuidar dos efeitos tardios

Com taxas de cura cada vez mais elevadas no cancro pediátrico, cresce também uma responsabilidade a longo prazo: acompanhar e tratar os efeitos tardios das terapias que salvaram estas crianças. Will Parsons, responsável pela Hematologia-Oncologia no Baylor College of Medicine (EUA) e diretor do Texas Children’s Cancer and Hematology Center (EUA), explica que o foco clínico está a evoluir para garantir décadas de saúde e qualidade de vida após o fim do tratamento.

Curar é o objetivo — mas a vida continua por muitas décadas

Parsons dá um exemplo simples: tratar durante alguns anos uma criança de cinco anos com leucemia aguda e curá-la significa querer que essa pessoa viva “mais 80 anos” com saúde. Nos Estados Unidos (EUA), já existem “centenas de milhares” de sobreviventes, e uma parte significativa enfrenta morbilidades associadas a cirurgia, radioterapia ou efeitos da quimioterapia.

Uma estratégia em dois níveis

O Texas Children’s refere uma abordagem com dois pilares:

1) Terapias mais dirigidas e menos tóxicas
Aposta no desenvolvimento de novos medicamentos, imunoterapias e tratamentos moleculares que visam alterações específicas do tumor, com a intenção de reduzir toxicidade e, assim, diminuir efeitos tardios. Este trabalho inclui ensaios clínicos para avaliar eficácia e segurança.

2) Seguimento estruturado em clínica de sobrevivência
Após a fase inicial — em que a criança é acompanhada pela equipa que conduziu o tratamento — os doentes são encaminhados, consoante o diagnóstico, para uma clínica de seguimento a longo prazo. Esta equipa é dedicada a:

  • identificar riscos tardios associados aos tratamentos específicos recebidos;
  • definir rastreios e vigilância de forma proativa;
  • intervir cedo quando surgem complicações.

A transição para cuidados de adultos é um ponto crítico

Parsons sublinha que um dos maiores desafios é a passagem do acompanhamento pediátrico para o sistema de adultos. À medida que os jovens crescem:

  • deixam de ter os pais a apoiar decisões de saúde;
  • podem perder cobertura de seguro;
  • e nem sempre têm a saúde como prioridade.

A isto juntam-se desafios práticos, como garantir que a informação clínica relevante acompanha o doente e chega aos profissionais que o irão seguir aos 35 ou 55 anos.

“Passport For Care”: um registo que acompanha o doente

Para facilitar esta continuidade, a equipa trabalhou durante anos numa ferramenta chamada Passport For Care (PFC), uma plataforma online que permite:

  • registar o historial de tratamentos de cada doente;
  • associar esse historial às recomendações mais recentes de vigilância, conforme a exposição terapêutica.

Parsons dá exemplos concretos:

  • quem recebeu radioterapia craniospinal pode precisar de rastreios específicos;
  • quem recebeu doxorrubicina pode ter risco aumentado de efeitos cardíacos a longo prazo, exigindo vigilância dirigida.

O PFC foi inicialmente implementado no Texas Children’s e depois alargado a outros centros através do Children’s Oncology Group (EUA), um grupo colaborativo financiado pelo National Cancer Institute (EUA). Parsons refere ainda apoio do Cancer Prevention Research Institute of Texas no desenvolvimento e expansão do programa.

O que fica como mensagem principal

A cura no cancro pediátrico é uma conquista enorme, mas implica um compromisso contínuo: acompanhar efeitos tardios, fazer rastreios adaptados ao risco e garantir transições seguras para cuidados de adultos. O objetivo é que a sobrevivência se traduza numa vida longa e com a melhor qualidade possível.

Fonte: Cure

Explore
Drag