Um novo estudo está a ajudar a compreender melhor como a sobrevivência ao cancro pediátrico pode influenciar o envelhecimento e a saúde cognitiva décadas após os tratamentos. Ao comparar jovens adultos sobreviventes com pessoas sem historial de cancro, os investigadores encontraram sinais de envelhecimento acelerado e uma associação clara com pior desempenho cognitivo, com impacto potencial na qualidade de vida.
O que foi analisado
A investigação avaliou:
- envelhecimento epigenético (alterações moleculares que influenciam o modo como os genes funcionam, incluindo padrões de metilação do ADN);
- desempenho cognitivo, através de testes e medidas de função mental.
Segundo AnnaLynn M. Williams, da University of Rochester (EUA), os sobreviventes de cancro pediátrico mostraram envelhecimento epigenético mais acelerado do que pessoas sem historial de cancro, em linha com resultados anteriores do mesmo grupo.
A ligação ao desempenho cognitivo
O ponto central deste estudo foi ligar os marcadores biológicos de envelhecimento aos resultados cognitivos. Em várias medidas de envelhecimento epigenético, níveis mais elevados estiveram associados a pior desempenho cognitivo, sugerindo uma relação entre envelhecimento molecular e declínio neurocognitivo.
Kevin Krull, do St. Jude Children’s Research Hospital (EUA), salientou que estes resultados reforçam a ideia de que os tratamentos podem afetar a saúde do cérebro a longo prazo, não apenas por efeitos conhecidos (como radioterapia craniana e terapias antifolato), mas também por potenciais mudanças moleculares mais amplas associadas a diferentes quimioterapias. O impacto, sublinha, pode refletir-se em áreas como escolaridade, emprego, vida social e qualidade de vida.
O papel do tipo de tratamento
Os investigadores analisaram diferenças consoante os tratamentos fossem ou não dirigidos ao sistema nervoso central (SNC):
- nos sobreviventes que receberam terapias dirigidas ao SNC, surgiram mais frequentemente alterações de memória;
- nos sobreviventes sem terapias dirigidas ao SNC, apareceram outros perfis de dificuldades cognitivas.
O estudo indica ainda que sobreviventes de linfoma de Hodgkin podem ser especialmente vulneráveis, em linha com trabalhos anteriores que apontam maior suscetibilidade ao envelhecimento acelerado em várias dimensões.
O que pode mudar na vigilância e no apoio
Clinicamente, os autores defendem que o acompanhamento a longo prazo das dificuldades cognitivas deve ser mais abrangente, não se limitando apenas a quem recebeu terapias tradicionalmente consideradas mais neurotóxicas.
Krull chama a atenção para a importância de vigiar também sobreviventes expostos a outros tratamentos, como antraciclinas, agentes alquilantes e corticosteroides, além de radioterapia craniana e terapias antifolato.
Intervenção: além da monitorização
Para lá da vigilância, o estudo destaca a necessidade de agir. Os investigadores referem que fatores como atividade física, nutrição, sono e outros hábitos de saúde podem ajudar a mitigar efeitos do envelhecimento acelerado. Em alguns casos, abordagens farmacológicas também poderão ter um papel.
A mensagem final é de atenção e validação: este processo pode manifestar-se 20 a 30 anos mais cedo do que seria esperado, e queixas cognitivas em sobreviventes jovens não devem ser desvalorizadas, mesmo quando a pessoa parece estar bem nos primeiros anos da vida adulta.
Fonte: Contemporary Pediatrics