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Medicamento para a epilepsia pode ajudar a travar tumores cerebrais pediátricos agressivos

Um medicamento já utilizado no tratamento da epilepsia poderá ajudar a reduzir o crescimento de alguns dos tumores cerebrais mais agressivos em crianças. A descoberta resulta de um estudo liderado por investigadores da ⁠Stanford Medicine (EUA), publicado na revista científica ⁠Nature Medicine.

A investigação demonstrou que o levetiracetam, um medicamento utilizado para prevenir e controlar crises epiléticas, consegue diminuir o crescimento dos gliomas difusos da linha média, um grupo de tumores que afeta o cérebro e a medula espinal.

Estes tumores estão entre os mais difíceis de tratar em oncologia pediátrica. Nos Estados Unidos, afetam entre 300 e 400 crianças por ano e apresentam uma taxa de sobrevivência aos cinco anos de aproximadamente 1%.

Medicamento interfere com os sinais que favorecem o crescimento do tumor

Investigações anteriores já tinham demonstrado que os gliomas difusos da linha média conseguem utilizar sinais elétricos transmitidos por células nervosas saudáveis para estimular o seu próprio crescimento.

Neste novo estudo, os investigadores descobriram que o levetiracetam consegue bloquear algumas dessas ligações elétricas, impedindo que os tumores recebam sinais que favorecem a sua progressão.

A equipa analisou inicialmente os registos clínicos de 218 crianças com gliomas de alto grau. Os resultados mostraram que os doentes com gliomas difusos da linha média que receberam levetiracetam apresentaram, em média, uma sobrevivência superior à dos que não receberam o medicamento.

Esta associação não foi observada em crianças com outros gliomas de alto grau localizados nos hemisférios cerebrais.

Resultados confirmados em modelos animais

Para compreender melhor o funcionamento do medicamento, os investigadores realizaram experiências em modelos animais com tumores provenientes de doentes.

Nos ratinhos com gliomas difusos da linha média, o levetiracetam conseguiu abrandar o crescimento das células tumorais. No entanto, o mesmo efeito não foi observado nos modelos de outros gliomas de alto grau.

A equipa verificou ainda que o medicamento atua nas células tumorais através de um mecanismo diferente daquele que utiliza para controlar as crises epiléticas.

Esta descoberta é particularmente relevante porque sugere a possibilidade de atuar sobre o tumor sem comprometer o funcionamento normal das células nervosas. Contudo, os investigadores ainda estão a estudar os mecanismos responsáveis por este efeito.

Novos ensaios clínicos vão avaliar o potencial do tratamento

Apesar dos resultados promissores, os investigadores sublinham que o levetiracetam, isoladamente, dificilmente será suficiente para curar estes tumores.

A principal possibilidade será utilizá-lo em combinação com outras terapias, incluindo a imunoterapia com células CAR-T, que também está a ser investigada para o tratamento de gliomas difusos da linha média.

A equipa liderada por Michelle Monje está a preparar um ensaio clínico para avaliar os efeitos do levetiracetam em doentes com estes tumores.

A utilização de um medicamento já conhecido e com um perfil de segurança estudado poderá facilitar o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas. No entanto, serão necessários ensaios clínicos para confirmar se os benefícios observados nos modelos animais e nos registos clínicos se traduzem numa melhoria efetiva da sobrevivência das crianças.

A investigação reforça o potencial de estudar medicamentos já existentes para encontrar novas abordagens contra o cancro pediátrico, especialmente em doenças para as quais continuam a existir poucas opções de tratamento.

Fonte: Medical Xpress

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