Os avanços na medicina nuclear estão a permitir conhecer melhor as características dos tumores pediátricos, avaliar a resposta aos tratamentos e, em alguns casos, fazer chegar a terapêutica de forma mais direcionada às células tumorais.
Uma revisão publicada na revista Seminars in Nuclear Medicine analisa o papel crescente destas técnicas no diagnóstico e tratamento do cancro pediátrico, destacando o seu potencial para tornar os cuidados mais personalizados.
Exames como a ecografia, a tomografia computorizada (TC) e a ressonância magnética continuam a ser fundamentais para perceber onde se encontra um tumor e qual a sua dimensão. A medicina nuclear acrescenta outro tipo de informação: através da utilização de pequenas quantidades de substâncias radioativas, chamadas radiofármacos ou traçadores, permite observar a atividade do tumor e algumas das suas características biológicas.
Esta informação pode ajudar os médicos a determinar a extensão da doença, acompanhar a resposta ao tratamento e, em determinadas situações, identificar características que poderão orientar a escolha da terapêutica.
Diferentes tumores exigem diferentes abordagens
O papel da medicina nuclear varia consoante o tipo de cancro pediátrico.
Na leucemia, o diagnóstico continua a ser feito sobretudo através da análise da medula óssea. No entanto, a PET-TC com FDG pode ser útil em situações específicas, nomeadamente para identificar locais da doença fora da medula óssea, avaliar a resposta ao tratamento, procurar doença residual ou detetar uma possível recaída.
Nos tumores cerebrais, a ressonância magnética mantém-se como o principal exame de imagem. Ainda assim, alguns tipos de PET podem fornecer informação complementar, ajudando a distinguir melhor o tecido tumoral das alterações provocadas pelo próprio tratamento. Novos traçadores estão também a ser estudados para melhorar a identificação e caracterização destes tumores.
A PET-TC tem igualmente um papel importante nos linfomas pediátricos, permitindo avaliar se os gânglios apresentam doença ativa e acompanhar a resposta ao tratamento, em vez de considerar apenas alterações no seu tamanho.
Neuroblastoma é um dos principais exemplos
O neuroblastoma é uma das áreas em que a medicina nuclear assume atualmente maior importância. A cintigrafia com MIBG permite identificar a extensão da doença porque a maioria destes tumores absorve este radiofármaco.
Esta característica pode também ser utilizada para tratar a doença. Na terapêutica com ¹³¹I-MIBG, a mesma capacidade das células tumorais para captar a substância é aproveitada para fazer chegar radiação diretamente ao tumor.
É um exemplo de teranóstica, uma abordagem que combina diagnóstico e tratamento através do mesmo alvo molecular.
A revisão refere ainda outras terapêuticas dirigidas com radionuclídeos que estão a ser estudadas em crianças com neuroblastoma em recaída ou resistente aos tratamentos disponíveis.
Um caminho para tratamentos mais personalizados
A medicina nuclear tem também vindo a ser utilizada em tumores como o rabdomiossarcoma, o osteossarcoma e o sarcoma de Ewing. Nestes casos, a PET-TC pode ajudar a identificar metástases, selecionar áreas para biopsia, avaliar precocemente a resposta à quimioterapia e acompanhar um possível regresso da doença.
Apesar de várias destas abordagens ainda estarem em desenvolvimento, a revisão aponta para uma evolução dos cuidados em cancro pediátrico: além de identificar onde está o tumor e qual o seu tamanho, torna-se cada vez mais possível conhecer o seu comportamento biológico.
Esse conhecimento poderá contribuir para selecionar tratamentos mais adequados às características de cada tumor, melhorar a avaliação da resposta à terapêutica e evitar, sempre que possível, tratamentos desnecessários e os respetivos efeitos secundários.
Fonte: NDTV