Um estudo liderado por investigadores da UCL (Reino Unido) e da Fondazione IRCCS Istituto Nazionale dei Tumori – INT (Itália) mostrou, pela primeira vez com detalhe, como o estádio do tumor no momento do diagnóstico (ou seja, o quanto o cancro já se espalhou) pode ajudar a explicar por que razão a sobrevivência no cancro pediátrico varia entre regiões europeias e entre diferentes tipos de tumor.
O trabalho foi publicado na JAMA Network Open.
O que foi analisado
Os investigadores analisaram dados de 9 883 crianças, recolhidos em 73 registos populacionais de cancro, em 27 países (principalmente europeus), diagnosticadas entre 2014 e 2017 com seis tipos de cancro pediátrico:
- neuroblastoma (pode surgir na glândula suprarrenal e noutros locais)
- tumor de Wilms (rim)
- meduloblastoma (cérebro)
- osteossarcoma (osso)
- sarcoma de Ewing (osso)
- rabdomiossarcoma (músculo)
O que o estudo encontrou
Em todos os seis tipos de cancro, a sobrevivência aos três anos esteve fortemente ligada ao estádio no diagnóstico: quanto mais avançado o estádio, menor a sobrevivência.
Ao comparar regiões (usando a Europa Central como referência), os investigadores encontraram variações significativas na sobrevivência aos três anos em quatro desses cancros.
Neuroblastoma: diagnóstico mais tardio pode explicar diferenças
No neuroblastoma, as crianças no Reino Unido e Irlanda tiveram sobrevivência mais baixa do que na Europa Central. Segundo os autores, esta diferença pode ser explicada pelo facto de, nessa região, o neuroblastoma ser diagnosticado em estádios relativamente mais avançados.
Sarcoma de Ewing: diferenças não se explicam só pelo estádio
No sarcoma de Ewing, a sobrevivência também foi mais baixa na Europa de Leste e no Reino Unido e Irlanda do que na Europa Central, mas aqui a diferença não pareceu ser explicada por diagnóstico mais tardio. A diferença foi observada sobretudo em doentes cuja doença já tinha disseminado, o que sugere a influência de outros fatores, como:
- para onde o tumor se espalhou
- diferenças na abordagem terapêutica quando existe disseminação
- acesso a cuidados especializados e diferenças entre sistemas de saúde
O que mudou: dados comparáveis entre países
Até agora, a falta de dados fiáveis sobre estádio no diagnóstico tornava difícil usar registos nacionais para compreender diferenças de sobrevivência entre países.
O projeto International Benchmarking of Childhood Cancer Survival by Stage (BENCHISTA) melhorou a recolha de dados para permitir comparações internacionais. O texto refere que os países envolvidos — 23 europeus (incluindo o Reino Unido) e também Brasil, Canadá, Austrália e Japão — chegaram a um acordo que demorou 18 meses, para garantir que pelo menos 90% dos casos de cancro pediátrico tinham o estádio registado de forma consistente, seguindo as Toronto Childhood Cancer Stage Guidelines.
Próximos passos
A próxima fase do BENCHISTA vai aprofundar a análise de outros fatores que podem contribuir para desigualdades, incluindo:
- diferenças nos tratamentos
- acesso a cuidados especializados
- diferenças entre sistemas de saúde
E deverá também reportar sobrevivência aos cinco anos, um indicador padrão em epidemiologia do cancro.
Limitações referidas
O texto assinala que, como acontece em estudos de doenças raras, o número de casos e o seguimento de três anos podem não captar totalmente algumas diferenças de sobrevivência a mais longo prazo.
Fonte: Medical Xpress