Muitos sobreviventes de cancro pediátrico vivem com riscos de saúde que podem surgir anos — ou décadas — depois do tratamento, mas uma parte significativa não faz o acompanhamento recomendado. Uma revisão publicada na revista Cancer Control, conduzida por investigadores da Keck School of Medicine of USC (EUA) e da University of Florida College of Medicine – Jacksonville (EUA), analisou as razões por detrás desta falha de cuidados.
O que está em causa
Nos Estados Unidos (EUA), 85% das crianças diagnosticadas com cancro sobrevivem pelo menos cinco anos. Ao mesmo tempo, existe uma população crescente de mais de 500 mil sobreviventes que pode enfrentar efeitos tardios importantes. A revisão destaca que quase um terço pode desenvolver problemas de saúde graves, potencialmente fatais, 20 anos após o diagnóstico, incluindo maior risco de novos cancros e complicações no coração, pulmões e cérebro.
Como foi feita a revisão
A equipa analisou 49 estudos sobre barreiras e fatores que facilitam o acesso a cuidados de seguimento. Para chegar a esses estudos, foram triadas 8 585 publicações.
Porque é que o acompanhamento falha
A revisão aponta dois grandes grupos de obstáculos:
1) Barreiras do sistema de saúde
- A transição de cuidados pediátricos para cuidados de adultos é um ponto crítico. Muitas crianças são tratadas em hospitais pediátricos e, ao crescerem, precisam de mudar de equipa e de serviços.
- Muitos médicos de medicina geral e familiar não têm os cuidados de sobrevivência “no radar” e podem não saber que exames pedir ou como vigiar riscos específicos deste grupo, apesar de existirem recomendações claras do Children’s Oncology Group (EUA) e do National Cancer Institute (EUA).
2) Barreiras pessoais e emocionais
- Falta de informação: alguns sobreviventes não conhecem a importância do seguimento ou acreditam, de forma errada, que já não precisam de vigilância.
- Evitamento por sofrimento emocional: para algumas pessoas, voltar a consultas e exames reativa memórias difíceis do cancro pediátrico, levando ao afastamento dos cuidados.
O que pode ajudar a melhorar o acesso e a adesão
A revisão identifica medidas que podem facilitar o acompanhamento, como:
- integrar planos de seguimento nos registos clínicos eletrónicos e normalizar reembolsos;
- incluir formação sobre sobrevivência de cancro pediátrico nos currículos de medicina;
- garantir que cada jovem adulto sai dos cuidados pediátricos com um resumo do tratamento e um plano de seguimento claros;
- criar programas de mentoria entre pares e “navegadores” de cuidados para apoiar a transição;
- usar ferramentas de decisão partilhada para construir planos em conjunto com sobreviventes, famílias e profissionais.
Mensagem principal
O estudo conclui que, embora existam orientações e soluções possíveis, muitos sobreviventes continuam sem o seguimento recomendado. Melhorar a transição para cuidados de adultos, reforçar a formação dos profissionais e apoiar emocionalmente os sobreviventes são passos essenciais para proteger a saúde a longo prazo no cancro pediátrico.
Fonte: Cure Today