Com os avanços no tratamento do cancro pediátrico, mais de 80% das crianças diagnosticadas sobrevivem pelo menos cinco anos após o diagnóstico. No entanto, muitos destes sobreviventes desenvolvem complicações de saúde a longo prazo — sendo os problemas cardíacos uma das principais causas de morbilidade e mortalidade precoce.
Estima-se que sobreviventes de cancro pediátrico tenham um risco 8 a 10 vezes maior de morrer por doenças cardíacas, em comparação com outras crianças da mesma idade. Até um terço desenvolverá uma condição crónica grave ou potencialmente fatal nas duas décadas após o diagnóstico.
Tratamentos eficazes, mas com efeitos colaterais no coração
Alguns tratamentos essenciais no combate ao cancro — como as antraciclinas (ex: doxorrubicina) e a radioterapia dirigida ao tórax — podem causar danos no coração. Estes efeitos nem sempre são imediatos, mas podem surgir anos depois, afetando a estrutura e o funcionamento do coração, incluindo o risco de insuficiência cardíaca.
As terapias mais recentes, como os inibidores de pontos de controlo imunológicos, inibidores de MEK e terapias com células CAR T, têm mostrado novos padrões de toxicidade cardíaca, ainda pouco compreendidos em crianças. Alguns casos envolvem inflamações no coração, alterações no ritmo cardíaco e disfunção cardíaca, embora muitos sejam reversíveis com vigilância adequada.
Estratégias de prevenção e vigilância mais eficazes
As recomendações mais recentes de grupos internacionais, como o Children’s Oncology Group (EUA)e a International Late Effects of Childhood Cancer Guideline Harmonization Group, sublinham a importância de adaptar a vigilância cardíaca ao risco individual de cada criança. Fatores como o tipo e dose de tratamento, idade, sexo e genética são agora considerados na definição dos planos de seguimento.
A ecocardiografia continua a ser o exame mais utilizado para avaliar a função cardíaca ao longo do tempo. As novas diretrizes reduziram a frequência de exames em crianças com risco baixo, mas reforçam a vigilância em casos de maior exposição ou risco genético.
O papel do exercício e da reabilitação
A prática de atividade física regular tem mostrado benefícios significativos para a saúde cardiovascular de crianças e adolescentes que tiveram cancro. Programas de exercício físico adaptado melhoram a resistência, a força muscular e a qualidade de vida, mesmo durante o tratamento.
Ainda assim, muitos sobreviventes permanecem sedentários. Barreiras como falta de serviços de reabilitação, limitações físicas ou falta de apoio familiar comprometem os resultados. Estudos sugerem que envolver os cuidadores nestes programas pode ajudar a aumentar a adesão das crianças à prática de exercício físico.
Novas abordagens e investigação em curso
O medicamento dexrazoxano, usado em alguns países para prevenir os efeitos tóxicos das antraciclinas, demonstrou reduzir significativamente os danos cardíacos em sobreviventes a longo prazo. Embora já aprovado nos EUA, o seu uso em pediatria tem sido alvo de estudo e discussão. As evidências mais recentes indicam que o seu benefício pode superar os riscos, especialmente em doses elevadas de quimioterapia.
A investigação genética também está a ganhar destaque. Já foram identificadas variantes genéticas que aumentam o risco de cardiotoxicidade. A esperança é que, no futuro, exames genéticos possam ajudar a prever que crianças têm maior risco e permitir tratamentos mais personalizados e seguros.
A inteligência artificial começa também a ser usada para prever efeitos cardíacos através da análise de exames e dados clínicos. Embora ainda em fase inicial, estas ferramentas poderão, em breve, ajudar os médicos a detetar alterações precoces antes que os sintomas surjam.
A transição para os cuidados na idade adulta
À medida que os sobreviventes crescem, a transição dos cuidados pediátricos para a medicina de adultos torna-se crítica. Muitas vezes, esta transição não é bem estruturada, e há risco de abandono do seguimento, o que pode comprometer a deteção e o tratamento de complicações cardíacas.
Modelos híbridos, que envolvem equipas pediátricas e de adultos em simultâneo, são apontados como soluções promissoras. Além disso, ferramentas digitais — como planos de acompanhamento, aplicações e portais de doente — podem facilitar esta transição e manter os jovens envolvidos nos seus cuidados.
Conclusão
Garantir a saúde do coração das crianças que venceram o cancro exige vigilância contínua, cuidados personalizados e equipas multidisciplinares. A investigação nesta área está a evoluir, mas persistem lacunas, sobretudo em terapias específicas para crianças.
É essencial continuar a investir em estratégias preventivas, melhorar os sistemas de vigilância e garantir que todos os sobreviventes têm acesso a cuidados adequados — não apenas durante o tratamento, mas ao longo de toda a vida.
Fonte: Springer Medicine