Não é justo. A infância deve ser cheia de risos, jogos e brincadeiras. Ser criança não deve incluir coisas como cirurgia e quimioterapia. Infelizmente, porém, o cancro infantil é a realidade que muitas famílias enfrentam.
A tristeza, a negação e a raiva tomam conta dos pais quando estes descobrem que o seu filho foi diagnosticado com cancro. Mas esses sentimentos não ficam apenas entre os pais, eles espalham-se e afetam outras pessoas, sejam elas membros da família ou amigos.
“No momento em que ouvimos as palavras ‘cancro infantil’, a vida nunca mais volta ao normal. Aliás, volta, porque aquela passa a ser a nova normalidade”, diz a assistente social Taylor Buss, especializada em ajudar famílias afetadas pelo cancro infantil.
“Há uma coisa muito importante, as famílias têm de saber que não estão sozinhas nesta jornada”.
Nos Estados Unidos, quando uma criança é diagnosticada com cancro, é imediatamente estabelecida uma equipa médica completa de assistência e suporte. Assistentes sociais, especialistas em vida infantil, psicólogos, médicos e enfermeiros trabalham em harmonia e diretamente com a família e com as crianças. Este grupo de especialistas foi treinado especificamente para ajudar uma criança a lidar com o cancro.
A oncologista pediátrica Stacey Zahler, diz que os pais e membros da família devem sentir que podem recorrer à equipa de profissionais para obter conselhos.
“Existe uma razão pela qual estamos disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana para a família”, refere.
Saber comunicar é fundamental
Taylor e Stacey acreditam que existem dicas muito uteis no que toca à forma de enfrentar um diagnóstico de cancro infantil.
“Os pais têm de ter uma comunicação aberta e honesta com a criança. Acredito que devem usar a palavra ‘cancro’ e as terminologias corretas quando se referem a coisas como cirurgia ou radioterapia. Podem não contar tudo, principalmente em relação ao prognóstico, mas devem ser o mais abertos e honestos possível sobre tudo o que está a acontecer”.
As profissionais afirmam que as crianças “geralmente sabem mais do que aquilo que nós pensamos. Elas conseguem captar as emoções e sentir se as pessoas ao seu redor estão com algum problema”; por isso, a retenção de informações pode causar sentimentos de traição.
“As crianças podem assustar-se se ouvirem coisas como ‘exames de sangue’ e ‘cirurgia’, mas se os pais lhe explicarem tudo, isso vai ajudá-las a sentirem-se mais confortáveis”.
Para Stacey Zahler, é fundamental que se encontrem formas de explicar as coisas de uma maneira que a criança entenda. Às vezes, isso significa usar um boneco de peluche para explicar à criança qual é a área do corpo que tem cancro. Também é importante falar com os mais pequenos sobre o tratamento. Os pais podem explicar que eles precisam de remédios para ajudá-los a se sentir melhor, mas que isso também pode fazer com que se sintam bastante doentes no início.
Por vezes, o tratamento pode mudar durante o diagnóstico. É por isso que é ainda mais importante manter uma comunicação aberta e honesta sobre o que está a acontecer.
“Os pais também têm que garantir à criança que ela na está sozinha. Que tem apoio total”.
“Saibam que não há problema em demonstrar emoções. Quando recebemos más notícias, especialmente sobre os nossos filhos, é natural que os queiramos proteger e que não deixemos que eles se apercebam. Mas eles apercebem-se sempre. E, se demonstrarmos as nossas próprias emoções vamos ajudá-los a sentirem-se seguros e, dessa forma, eles vão sentir-se mais à vontade a partilhar o que sentem”.
Como ajudar as crianças e adolescentes a entender o cancro
Às vezes, no caso de crianças mais pequenas, há muita ansiedade em torno delas, porque não se sabe bem qual é a visão delas sobre o diagnóstico. Muitas crianças pensam que fizeram algo de mal, que a culpa de terem cancro é delas. As crianças mais jovens também tendem a preocupar-se com o fato de os pais não voltarem após o tratamento ou por poderem contagiar alguém.
“Essa é outra razão pela qual é tão importante garantir que o seu filho saiba o que está a acontecer, mesmo que seja muito jovem. Garanta ao seu filho que estará com ele durante todos os momentos”.
“Mesmo que a criança tenha 2 anos de idade, ela deve saber o porquê de estar a ser sujeita a quimioterapia. Obviamente, é muito complicado explicar a uma criança de 2 anos o que é o cancro, o que são os tratamentos, mas é por isso que existem equipas médicas especializadas”, diz Stacey Zahler.
Os pais também têm de estar preparados para as perguntas que os filhos lhes vão fazer. As crianças são naturalmente curiosas e querem saber o que está a acontecer.
“As crianças mais velhas geralmente entendem mais sobre o cancro porque, geralmente, já ouviram alguém a falar sobre a doença. Mas não é por isso que podemos descurar a comunicação”, alerta a assistente social Taylor Buss.
Às vezes, as crianças mais velhas têm dificuldade em lidar com a falta do desporto, da escola e dos amigos. Muitas vezes, não é tanto o cancro, mas sim o que se perde com ele. Nesse caso, é importante ajudar os jovens a entenderem que os pais percebem as suas frustrações, dizer-lhes que sabem que eles estão chateados por deixar de estar com os seus amigos.
Por outro lado, é necessário que as crianças mais velhas sintam que a sua opinião é importante.
Os longos períodos de internamento
Se o seu filho precisar de permanecer no hospital por um longo período de tempo, leve elementos tornem aquele local mais familiar e seguro, desde fotografias, a cobertores, a um ou outro brinquedo.
Incentive as visitas de familiares e amigos, caso estas sejam aprovadas pela equipa médica.
A adaptação ao fim do tratamento
O fim do tratamento geralmente é recebido com uma breve sensação de alívio e, em seguida, rapidamente inundado de ansiedade; há o risco de recidiva, dos efeitos secundários, do regresso à vida normal.
“Trabalhamos com as famílias para lhes dizer que não há problema em estarem preocupadas. Mas não é bom viver num estado permanente de preocupação”, diz Taylor Buss.
“Falem com as equipas médicas, elas podem fornecer recursos, grupos de apoio e programas para ajudar o seu filho e a sua família a avançarem para a fase da sobrevivência”.
Fonte: Health