Search

Vírus da gripe modificado poderá ser uma arma na luta contra cancro cerebral infantil

Uma investigação publicada no The New England Journal of Medicine revela que uma injeção com o vírus da gripe DNX-2401 geneticamente manipulado ajuda a retardar o desenvolvimento das células cancerígenas e a prolongar a longevidade de pacientes pediátricos com um tumor no cérebro altamente agressivo e difícil de tratar.

Realizado por cientistas da Clínica Universidade de Navarra, o estudo descreve como o vírus da gripe foi modificado geneticamente até adquirir propriedades oncolíticas – isto é, infetar unicamente células cancerígenas – e obter o nome DNX-2401. Os resultados da investigação, apesar de “modestos” e ainda incipientes, foram também muito promissores.

Durante a investigação, foram avaliadas doze crianças de vários países, com idades entre os três e os 18 anos, que padeciam de um tipo de cancro no cérebro que, para além de raro, é também o mais letal: a perspetiva média de sobrevivência é de “menos de um ano”, referiu Marta Alonso, a coautora, ao El País.

Uma das alterações genéticas feita ao vírus obrigou-o a unir-se seletivamente às integrinas, proteínas que abundam na superfície das células cancerígenas. Outra alteração fez com que a reprodução do vírus e o surgimento de uma infeção só sejam possíveis se o gene do retinoblastoma (típico de tumores malignos e inexistente em células saudáveis) for ativado.

Adicionalmente, realizaram-se biópsias a todos os 12 pacientes, para obter uma informação mais pormenorizada sobre o perfil genético e as vulnerabilidades cancerígenas de cada caso específico. Posteriormente, o vírus foi injetado no local do tumor, numa abordagem semelhante à já utilizada nos principais tratamentos de imunoterapia oncológica.

Os efeitos secundários registados demonstram a segurança do procedimento, com sintomas que se comparam aos da toma de uma aspirina: cefaleias, náusea, vómitos e fadiga.

Os resultados obtidos tornam este estudo “um marco importante”, destacou Álvaro Lassaletta, chefe da unidade de tumores cerebrais do Hospital Niño Jesús, em Madrid, em Espanha. Para além de se ter verificado o retardar do desenvolvimento das células cancerígenas, foi também desencadeada a identificação e a eliminação deste tipo de células por parte do sistema imunitário.

“Nos últimos 50 anos, foram testados múltiplos tratamentos de quimioterapia e nenhum serviu para curar os pacientes. Este estudo demonstra que se pode fazer uma biópsia ao tronco cerebral e aplicar o tratamento. Os efeitos secundários são toleráveis. A sobrevivência também é prolongada, o que é prometedor”, explica o médico.

Este tipo de vírus, alterado geneticamente, já tinha sido desenvolvido há mais de 15 anos por dois médicos neurologistas espanhóis, tendo revelado resultados igualmente promissores em adultos. A aplicação desta abordagem em crianças – e neste tipo de cancro em particular, raro e muitas vezes negligenciado pela comunidade científica – só foi possível devido a um incentivo de dois milhões de euros por parte da União Europeia, que permitiram a Marta Alonso desenvolver o ensaio clínico cujos resultados agora foram publicados.

Fonte: CNN

Explore
Drag