Uma nova análise do estudo Global Burden of Disease 2023 estima que, em 2023, o mundo registou cerca de 377 mil novos casos de cancro pediátrico (0–19 anos) e 144 mil mortes. No total, o cancro pediátrico representou 11,7 milhõesde DALYs (anos de vida ajustados por incapacidade), um indicador que junta morte precoce e anos vividos com doença.
O estudo sublinha que, apesar de uma descida global de mortes desde 1990, a carga da doença continua elevada e é desproporcionalmente concentrada em contextos com menos recursos.
O que mudou e porque este estudo é diferente
Os autores referem que muitos países não têm dados completos de registos oncológicos pediátricos. Para colmatar lacunas, o GBD usa várias fontes (registos de cancro, sistemas de mortalidade e autópsias verbais) e modelos estatísticos.
Nesta edição, foram incluídos nove novos tipos de cancro relevantes na infância, reduzindo a percentagem de casos antes “não categorizados” de 26,5% (GBD 2017) para 10,5% em 2023.
Principais números em 2023
- 377 mil novos casos (intervalo de incerteza: 288 mil–489 mil)
- 144 mil mortes (131 mil–162 mil)
- 11,7 milhões de DALYs (10,7–13,2)
Tendências desde 1990: descida global, subida em África
Globalmente, as mortes por cancro pediátrico diminuíram 27,0% desde 1990:
- de 197 mil mortes em 1990 para valores mais baixos em 2023.
No entanto, na Região Africana da OMS, as mortes aumentaram 55,6% entre 1990 e 2023:
- de 31 500 para 49 mil mortes.
Desigualdade: onde se nasce continua a pesar
Em 2023, os anos de vida perdidos (YLLs) por cancro pediátrico estiveram inversamente associados ao nível socioeconómico do país (índice sociodemográfico): quanto mais baixo o índice, maior a carga de morte precoce.
O estudo refere ainda que o cancro pediátrico foi a oitava principal causa de morte em crianças e a nona principal causa de DALYs entre todos os cancros em 2023.
Alinhamento com a meta da OMS
Os autores indicam que os cancros-alvo da Global Initiative for Childhood Cancer da Organização Mundial da Saúde (OMS) (Suíça) representaram 47,3% das mortes globais por cancro pediátrico em 2023, o que aproxima a análise das prioridades definidas pela iniciativa.
A mensagem principal
A carga global do cancro pediátrico continua elevada e marcada por desigualdades. Segundo os autores, reduzir esta carga exige:
- foco nas iniquidades entre regiões;
- melhorias ao longo de todo o percurso de cuidados, do diagnóstico ao tratamento e seguimento;
- reforço de sistemas de saúde em contextos com menos recursos, onde o peso da doença é maior.
Fonte: The Lancet