Uma nova combinação de medicamentos mostrou resultados promissores no combate ao neuroblastoma agressivo, um tipo raro de cancro pediátrico com baixa taxa de sobrevivência. O estudo, realizado por investigadores da Lund University (Suécia), utilizou aprendizagem automática (machine learning) para identificar dois fármacos já existentes — uma estatina e uma fenotiazina — que, usados em conjunto, conseguiram travar o crescimento de tumores e aumentar a sobrevivência em modelos laboratoriais.
O neuroblastoma afeta todos os anos entre 15 a 20 crianças na Suécia, maioritariamente antes dos cinco anos. A forma mais agressiva da doença é resistente à maioria dos tratamentos, incluindo a quimioterapia, especialmente nos casos de recaída.
A equipa liderada por Daniel Bexell, do grupo de investigação em Oncologia Pediátrica Molecular da Lund University, decidiu explorar a reutilização de medicamentos — ou drug repurposing —, isto é, testar fármacos aprovados para outras doenças, mas que possam ter efeitos benéficos contra o neuroblastoma.
O estudo, publicado na revista EMBO Molecular Medicine, contou com a colaboração da empresa britânica de biotecnologia Healx, do Karolinska Institutet (Suécia), da aPODD Foundation (Reino Unido) e da ENEA (Itália).
Recorrendo a algoritmos de inteligência artificial e a grandes volumes de dados sobre a ação dos medicamentos e os genes associados ao neuroblastoma, os investigadores testaram várias combinações de fármacos em tumores humanos implantados em modelos laboratoriais. Os melhores resultados surgiram com a combinação de uma estatina, habitualmente usada para baixar o colesterol, e uma fenotiazina, usada no tratamento de náuseas e enxaquecas.
“Ambos os medicamentos, individualmente, já mostravam algum efeito. Mas juntos revelaram uma ação sinérgica muito forte”, afirmou Katarzyna Radke, primeira autora do estudo.
As experiências mostraram que esta combinação reduzia drasticamente os níveis de colesterol nas células tumorais, levando à morte de muitas dessas células e tornando as restantes mais sensíveis à quimioterapia. “Sabíamos que o colesterol era importante para o tumor, mas surpreendeu-nos a força do efeito obtido”, referiu Bexell.
O tratamento revelou-se eficaz mesmo em tumores resistentes, mas são necessárias mais investigações para melhorar as propriedades químicas dos dois fármacos e otimizar os resultados. Apesar disso, os investigadores acreditam que esta pode ser uma nova via de tratamento com potencial real para crianças com neuroblastoma agressivo.
Fonte: Medical Xpress