Uma nova imunoterapia conseguiu eliminar os sinais detetáveis de cancro numa criança de três anos com hepatoblastoma, o tumor maligno do fígado mais frequente em idade pediátrica. O resultado foi alcançado após vários tratamentos sem sucesso e mantém-se um ano depois da administração da terapia.
O caso foi descrito na revista científica The New England Journal of Medicine por investigadores do Baylor College of Medicine (EUA), do Texas Children’s Hospital (EUA) e do Seattle Children’s Hospital (EUA).
Uma nova opção após a resistência à quimioterapia
A criança foi inicialmente diagnosticada com um tumor de grandes dimensões no fígado, acompanhado de metástases nos pulmões.
Antes de participar no estudo, recebeu três linhas de quimioterapia e foi submetida a cirurgias para remover o tumor do fígado e duas metástases pulmonares.
Apesar dos tratamentos, o cancro deixou de responder à quimioterapia e surgiu uma nova metástase no pulmão.
Foi nesta fase que a criança integrou o ensaio clínico CARE, um estudo de fase I que está a avaliar uma nova imunoterapia com células CAR-T em doentes com tumores sólidos.
Células do próprio doente modificadas para combater o tumor
A nova abordagem utiliza células T do sistema imunitário do próprio doente, que são modificadas geneticamente em laboratório para reconhecer e atacar as células cancerígenas.
Neste caso, as células foram preparadas para identificar uma proteína chamada GPC3 (glipicano-3), presente em determinados tumores, incluindo o hepatoblastoma.
Os investigadores introduziram ainda modificações destinadas a melhorar a atividade destas células, recorrendo às proteínas IL-15 e IL-21, envolvidas na resposta imunitária. A terapia inclui também um mecanismo de segurança que permite controlar as células modificadas, caso seja necessário.
A criança recebeu duas infusões, com um intervalo de oito semanas, ambas administradas em regime ambulatório, sem necessidade de internamento.
Após a primeira infusão, os médicos observaram uma redução da doença. Depois da segunda, os exames de imagem revelaram o desaparecimento completo dos sinais detetáveis das metástases.
Um ano após o tratamento, a resposta completa mantém-se.
Resultados promissores, mas ainda numa fase inicial
Durante o tratamento, não foram registados efeitos secundários que limitassem a dose nem síndrome de libertação de citocinas, uma complicação inflamatória que pode ocorrer com determinadas imunoterapias.
Para David Steffin, um dos investigadores responsáveis pelo estudo, o caso demonstra que uma resposta completa e duradoura pode ser alcançada num tumor sólido resistente à quimioterapia, através de um tratamento administrado em ambulatório.
No entanto, trata-se de um único caso clínico, pelo que ainda não é possível determinar se a terapia terá os mesmos resultados noutras crianças.
O ensaio CARE encontra-se na fase I, dedicada sobretudo à avaliação da segurança e da dose dos tratamentos experimentais.
Os investigadores consideram que estes resultados justificam a continuação dos estudos com células CAR-T dirigidas à proteína GPC3, abrindo novas perspetivas para o tratamento do hepatoblastoma e de outros tumores sólidos pediátricos resistentes às terapias convencionais.
Fonte: Baylor College of Medicine