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Tratamentos anteriores podem deixar marcas no ADN dos tumores em recaída

A quimioterapia e a radioterapia podem deixar marcas específicas no ADN das células tumorais que sobrevivem ao tratamento do cancro pediátrico. Um novo estudo mostra que estas alterações podem tornar-se detetáveis relativamente cedo e ajudar a compreender melhor a evolução dos tumores que reaparecem ou desenvolvem metástases.

A investigação analisou 611 amostras tumorais de 544 crianças, provenientes de três programas de medicina de precisão no Canadá, Austrália e EUA. Os investigadores sequenciaram o genoma completo dos tumores e cruzaram essa informação com dados detalhados sobre os tratamentos recebidos, incluindo medicamentos, doses e datas de administração.

Tumores após o tratamento apresentavam mais mutações

Os investigadores procuraram identificar assinaturas mutacionais, ou seja, padrões de alterações no ADN que podem revelar os processos que deram origem às mutações.

Os tumores analisados depois do tratamento apresentavam aproximadamente o dobro da carga total de mutações e quase três vezes mais assinaturas mutacionais específicas do que os tumores que ainda não tinham sido expostos a terapêutica.

A quimioterapia e a radioterapia foram as únicas fontes externas de mutações identificadas nos tumores em recaída e, em muitos casos, representavam uma parte importante das alterações encontradas.

Os efeitos variaram, contudo, de acordo com o tratamento. Entre os medicamentos analisados, os compostos à base de platina foram os que deixaram as marcas mutacionais mais pronunciadas.

Alterações associadas à platina podem surgir em poucos meses

Entre os 173 tumores expostos a medicamentos à base de platina, 41% apresentavam assinaturas mutacionais já conhecidas associadas a estes tratamentos.

A marca mais precoce foi detetada 91 dias após o início da terapêutica. No espaço de um ano, 35% dos tumores tratados com platina apresentavam uma assinatura correspondente.

Os investigadores encontraram ainda uma associação entre estas assinaturas e mecanismos relacionados com resistência ao tratamento. No entanto, serão necessários estudos maiores para compreender melhor a relação entre estas alterações, a recaída e a resposta às terapêuticas.

Poderá ser possível acompanhar mais cedo células resistentes

Os resultados não significam que a quimioterapia deva ser evitada: estes tratamentos são fundamentais para a cura de muitas crianças com cancro. O estudo ajuda, antes, a compreender com maior detalhe como os tratamentos podem influenciar as células tumorais que sobrevivem e a evolução posterior da doença.

No futuro, conhecer estas assinaturas poderá ajudar a identificar mais cedo grupos de células resistentes antes de se expandirem e a perceber em que situações poderá ser possível reduzir a intensidade de determinados tratamentos sem comprometer a sua eficácia.

Os autores salientam, contudo, que o cancro pediátrico é raro e que vários tipos de tumor estavam representados por poucas amostras. Algumas das novas assinaturas identificadas terão, por isso, de ser confirmadas em estudos futuros.

Fonte: Nature

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