Rui Pereira foi uma das menções honrosas da edição mais recente do Prémio Rui Osório de Castro / Millennium bcp, distinguido pelo seu trabalho de investigação em tumores cerebrais pediátricos.
Investigador auxiliar no laboratório de Biomateriais Moleculares do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, Rui Pereira tem desenvolvido uma linha de investigação centrada na criação de modelos experimentais mais próximos da realidade biológica dos doentes, com o objetivo de estudar melhor os tumores cerebrais pediátricos e contribuir, no futuro, para terapias mais eficazes e seguras.
Nesta entrevista ao PIPOP, fala-nos sobre o seu percurso científico, os desafios da investigação em oncologia pediátrica, a importância da colaboração entre instituições e o significado de receber esta menção honrosa.
“Trabalhar nesta área é, para mim, simultaneamente um desafio científico e um compromisso humano: como investigador e também como pai, sinto uma responsabilidade particular em contribuir para que o conhecimento científico possa traduzir-se em terapias mais eficazes e seguras para crianças que enfrentam estas doenças.”
Pode partilhar o seu percurso enquanto investigador e o que o motivou a dedicar-se à oncologia pediátrica?
O meu percurso científico, ao longo de mais de dezasseis anos, na área da medicina regenerativa, imunologia e oncologia translacional foi sempre guiado por uma forte curiosidade científica e pelo desejo de compreender melhor fenómenos biológicos, e.g. regeneração de tecidos e como os tumores se desenvolvem gerando o seu próprio microambiente com o organismo. Uma parte decisiva deste caminho, começou em Itália, durante o meu período de pós-doutoramento no Instituto Italiano de Tecnologia (IIT). Foi aí que tive a oportunidade de trabalhar diretamente com médicos neuro-oncologistas e estabelecer uma ligação muito próxima com a realidade clínica, nomeadamente através da colaboração com o Hospital San Martino e, sobretudo, com o Hospital Pediátrico GianninacGaslini, ambos em Génova. O contacto com equipas médicas que lidam diariamente com tumores cerebrais, adultos e pediátricos, permitiu-me perceber, de forma muito concreta, as limitações que ainda persistem há décadas na investigação nesta área e a necessidade urgente de desenvolver novas abordagens que ajudem a ultrapassar esses obstáculos.
Essa experiência marcou profundamente a minha trajetória científica. Percebi que muitas das dificuldades no desenvolvimento de novas terapias para tumores cerebrais pediátricos não resultam apenas da complexidade biológica da doença, mas também da carência de modelos experimentais capazes de reproduzir adequadamente o que acontece no organismo humano. A partir desse momento, tornou-se claro que parte do meu trabalho deveria focar-se precisamente em contribuir para superar essa lacuna.
Desde meados de 2022 que sou investigador auxiliar no laboratório de Biomateriais Moleculares liderado pela Dr Helena Azevedo sediado no i3s – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto. O projeto em questão tem sido apoiado pelo Grupo Biomateriais Moleculares e através colaborações internas no instituto, com o apoio financeiro do projeto europeu MOBILise ERA CHAIR (Grant Agreement n.º951723).
Trabalhar nesta área é, para mim, simultaneamente um desafio científico e um compromisso humano: como investigador e também como pai, sinto uma responsabilidade particular em contribuir para que o conhecimento científico possa traduzir-se em terapias mais eficazes e seguras para crianças que enfrentam estas doenças.
Qual é a principal questão científica que orienta o seu projeto e que lacuna no conhecimento pretende colmatar?
A questão central do nosso projeto é relativamente simples de formular, embora cientificamente complexa: como podemos estudar tumores cerebrais humanos em condições experimentais que reflitam, de forma mais fiel, o que acontece no organismo dos doentes? Muitos dos modelos experimentais hoje utilizados não conseguem reproduzir adequadamente a interação entre as células tumorais, o sistema imunitário e a barreira hematoencefálica — três elementos fundamentais que influenciam profundamente a resposta aos tratamentos. Esta limitação tem sido um dos principais fatores por detrás do elevado número de terapias promissoras que demonstram bons resultados em laboratório, mas, que infelizmente para os pequenos pacientes, acabam por serem menos eficazes quando chegam à fase clínica.
O desenvolvimento do nosso projecto na área de tumores cerebais infantis, em partcular no tumor Medullobastoma, procura responder precisamente a este desafio. Ao criar um sistema experimental capaz de estudar tumores humanos derivados de pacientes num ambiente biológico mais completo — onde o sistema imunitário e a dinâmica da barreira hematoencefálica permanecem funcionais — pretendemos gerar um modelo mais realista para avaliar novas estratégias terapêuticas. Este projeto é agora suportado por uma plataforma com marca registada, FoehnBiociences™, que pretende estruturar e consolidar esta abordagem científica numa infraestrutura tecnológica dedicada à investigação translacional em tumores cerebrais. Para mim, este passo representa também a vontade de transformar uma ideia científica numa plataforma estruturada que possa gerar impacto real na investigação, no desenvolvimento de novas terapias e na consequente melhoria social e económica dos pacientes e seus núcleos familiares
De que forma os resultados desta investigação poderão, no futuro, traduzir-se em melhores diagnósticos, tratamentos ou qualidade de vida para as crianças e jovens com cancro?
Se conseguirmos estudar os tumores cerebrais em condições experimentais mais próximas da realidade biológica dos doentes, torna-se possível compreender melhor porque certos tratamentos funcionam em alguns casos e falham noutros. O projecto que estamos a desenvolver baseado na nossa plataforma – FoehnBiosciences™ – permitirá testar diferentes terapias de modo mais rápido e mais preciso, incluindo medicamentos que já existem no mercado e que podem, eventualmente, sem necessidade de novas aprovações (num processo denominado reaproveitamento de fármacos/do inglêsdrug repurposing) ser reutilizados para tratar determinados tipos de tumores. Pensamos que esta abordagem permite acelerar significativamente a identificação de opções terapêuticas potencialmente eficazes.
Paralelamente, os resultados obtidos no modelo in vivo serão também corroborados e complementados através da utilização de modelos in vitro avançados, nomeadamente organoides tumorais derivados de células humanas. Estes sistemas tridimensionais permitem reproduzir, em laboratório, aspetos importantes da arquitetura e da biologia dos tumores, possibilitando a identificação de mecanismos moleculares e pathways específicos envolvidos na resposta dos tumores pediátricos aos fármacos.
Além disso, o projeto abre a porta à descoberta de biomarcadores — sinais biológicos que nos ajudam a prever como um tumor irá responder a determinado tratamento. No futuro, esta informação poderá contribuir para estratégias de medicina mais personalizada, em que cada criança recebe a terapia mais adequada às características específicas do seu tumor. O objetivo final é claro: melhorar as taxas de sobrevivência e, ao mesmo tempo, reduzir os efeitos secundários dos tratamentos, permitindo uma melhor qualidade de vida das crianças.
Quais considera serem atualmente os principais desafios da investigação em oncologia pediátrica em Portugal — e que oportunidades identifica?
Um dos principais desafios da investigação em oncologia pediátrica em Portugal está relacionado com a escala (o que visto do lado social e da doença é óptimo). O número relativamente reduzido de casos, quando comparado com outras áreas da oncologia, torna essencial a partilha de conhecimento, dados e recursos entre diferentes instituições. Muitas vezes, investigadores, hospitais e centros clínicos trabalham com grande dedicação, mas ainda de forma fragmentada. O nosso projecto, bem como outros, englobando mais do que uma instituição tenta ultrapassar esta realidade.
A este desafio junta-se também a questão do financiamento científico: em Portugal, o nível de financiamento dedicado à investigação em oncologia pediátrica continua a ser relativamente baixo quando comparado com o que se observa em vários outros países europeus. Isto deve-se, em parte, à existência de um número mais reduzido de associações filantrópicas dedicadas especificamente a apoiar este tipo de investigação. Neste panorama, a Fundação Rui Osório de Castro destaca-se de forma muito especial pela sua generosidade, visão e resiliência no apoio à investigação e à sensibilização para o cancro pediátrico.
Ao mesmo tempo, esta realidade representa também uma grande oportunidade. Portugal possui investigadores altamente qualificados e centros hospitalares com experiência clínica muito relevante. Reforçar e ampliar as colaborações entre hospitais pediátricos, centros de investigação e universidades pode criar um ecossistema científico mais integrado e competitivo. Ao aproximar a investigação laboratorial da prática clínica, será possível acelerar a tradução do conhecimento científico em benefícios concretos para os doentes.
Que papel têm a colaboração internacional e os ensaios clínicos no avanço da investigação nesta área? (opcional, se fizer sentido para o projeto)
Tal como em outras áreas científicas, também na oncologia pediátrica, a colaboração internacional não é apenas importante — é absolutamente essencial. Muitos tipos de tumores cerebrais pediátricos são relativamente raros, o que significa que dificilmente algum país, isoladamente, consegue reunir amostras, dados clínicos e experiência suficientes para responder a todas as perguntas científicas relevantes. As redes internacionais permitem partilhar conhecimento, melhorar metodologias e criar estudos mais robustos.
Os ensaios clínicos são a etapa final deste percurso científico. São eles que permitem transformar uma descoberta feita no laboratório numa opção terapêutica real para os doentes. Plataformas experimentais mais preditivas, como a que estamos a desenvolver, podem ajudar a identificar com maior precisão quais as terapias com superior ou mais probabilidade de sucesso, tornando os ensaios clínicos mais eficientes e aumentando as probabilidades de encontrar tratamentos eficazes.
Que significado tem para si receber o Prémio Rui Osório de Castro / Millennium bcp e de que forma este apoio contribui para a concretização do projeto?
Receber uma menção honrosa no Prémio Rui Osório de Castro / Millennium bcp, um marco na investigação oncológica pediátrica em Portugal, foi, para mim, um reconhecimento profundamente significativo. Mesmo não envolvendo um apoio financeiro direto, representa uma validação muito importante do trabalho científico desenvolvido e da relevância do projeto. Senti uma grande honra, mas também uma responsabilidade acrescida para continuar a desenvolver esta investigação com o mesmo rigor, ética e compromisso, sempre com o objetivo de contribuir para avanços reais no tratamento dos tumores cerebrais pediátricos.
Este percurso só foi possível graças ao ambiente científico excecional em que trabalho. Em particular, devo muito à visão abrangente da Dr Helena Azevedo, diretora do laboratório Molecular Biomaterials no i3S, que sempre me deu um apoio incondicional para levar avante esta linha de investigação. No i3S encontro todas as condições necessárias para a desenvolver, desde o acesso a infraestruturas laboratoriais avançadas para investigação in vitro, até às estruturas que permitem realizar ensaios in vivo, nomeadamente o biotério, sempre com o apoio fundamental da sua responsável, Dr Sofia Lamas. A isto somam-se colaborações científicas essenciais dentro deste ecossistema, incluindo o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto – IPATIMUP – através do Dr Jorge Lima, e médicos de oncologia pediátrica do Hospital de São João, nomeadamente a Dr Maria João Gil da Costa.
Este ambiente cientificamente enérgico reforça diariamente a convicção de que a investigação é um esforço coletivo e de longo prazo — porque, em ciência como na sociedade, mudar o amanhã começa hoje. Lembrando Galileo Galilei, “todas as verdades são fáceis de entender uma vez descobertas; a questão é descobri-las.”