Um estudo sugere que uma técnica de ressonância magnética chamada PREFUL (feita em baixa intensidade de campo e com respiração normal) pode detetar alterações funcionais nos pulmões de crianças e adolescentes que sobreviveram a cancro pediátrico, antes de surgirem sintomas.
A investigação avaliou jovens tratados por leucemia linfoblástica aguda e doença de Hodgkin e concluiu que existiam defeitos de ventilação e perfusão nos pulmões, que aumentavam com o tempo após o tratamento, mesmo quando as crianças não apresentavam queixas.
O que os investigadores queriam perceber
Os sobreviventes de cancro pediátrico têm risco aumentado de doenças crónicas ao longo da vida. No caso dos pulmões, faltam métodos suficientemente sensíveis para detetar dano precoce, antes de aparecerem sintomas.
A técnica PREFUL com ressonância magnética de baixo campo pode ajudar porque:
- é feita com respiração livre (sem “prender” a respiração);
- não usa radiação ionizante;
- não precisa de meios de contraste.
Como foi feito o estudo
Foi um estudo transversal, num único centro, com 27 participantes entre cinco e 17 anos:
- 21 tratados por leucemia linfoblástica aguda
- seis tratados por doença de Hodgkin
Os investigadores procuraram alterações estruturais no pulmão e, sobretudo, alterações funcionais, medindo:
- defeitos de ventilação
- defeitos de perfusão
- “casamento” ventilação/perfusão (V/Q match)
O que foi encontrado
Apesar de quase não existirem alterações visíveis na imagem “normal” e de praticamente não haver sintomas, a PREFUL detetou alterações funcionais relevantes.
Nos doentes tratados por leucemia linfoblástica aguda, foi observada uma associação clara com o tempo:
- quanto mais tempo passava desde o fim da terapêutica, menor era a percentagem de tecido pulmonar “sem defeitos”.
- a correlação entre tempo após o tratamento e tecido pulmonar sem defeitos foi negativa (coeficiente de Spearman = −0,69; p = 0,0005).
De forma geral, o estudo sugere que:
- os defeitos de ventilação e perfusão aumentam com o tempo,
- e podem surgir antes de qualquer queixa respiratória.
Porque isto pode ser útil
Os autores defendem que estas alterações funcionais podem ser um sinal precoce de dano pulmonar que só mais tarde se tornará evidente clinicamente. Se isso se confirmar, a PREFUL pode servir para:
- detetar toxicidade pulmonar mais cedo;
- acompanhar os doentes ao longo do tempo;
- ajudar na estratificação de risco;
- e, no futuro, apoiar decisões de adaptação de terapêutica e de seguimento.
O que ainda falta saber
O estudo é pequeno e os autores sublinham que é necessária investigação adicional para perceber se estas alterações são reversíveis ou se representam o início de uma doença pulmonar crónica. Estão previstas análises maiores, com mais participantes e inclusão de sobreviventes adultos e grupos de controlo.
Fonte: Nature