Uma equipa da University of Michigan (EUA) demonstrou que tecido ovárico doado, colocado dentro de uma cápsula em gel que o “esconde” do sistema imunitário, conseguiu restaurar ciclos hormonais naturais em ratinhos. O objetivo é, no futuro, ajudar sobreviventes de cancro pediátrico a recuperar ciclos hormonais e um desenvolvimento pubertário mais próximo do natural.
O estudo foi publicado na Science Advances.
Porque isto interessa a sobreviventes de cancro pediátrico
A quimioterapia e a radioterapia podem danificar a reserva de folículos ováricos, que não se regenera. Em algumas raparigas, isso leva a insuficiência ovárica prematura, uma condição que pode atrasar ou impedir a puberdade e aumentar riscos de saúde, como fragilidade óssea, problemas cardiovasculares e complicações neurológicas e do sistema imunitário.
O problema das opções atuais
Uma possibilidade é recolher tecido ovárico antes do tratamento e reimplantar depois, para recuperar a função hormonal. Mas este procedimento é raro em contexto pediátrico e, em alguns casos, pode reintroduzir células cancerígenas.
Usar tecido de dadora também não é simples: normalmente exigiria imunossupressão, com riscos crónicos associados.
Atualmente, muitas doentes acabam por receber terapêutica hormonal de substituição, muitas vezes fora das indicações habituais. O problema, segundo os investigadores, é que esta terapêutica não reproduz a variação natural das hormonas produzidas pelos ovários ao longo do tempo — tende a fornecer quantidades fixas de apenas duashormonas.
A solução testada: uma cápsula que protege o tecido
A equipa da University of Michigan está a desenvolver uma técnica em que o tecido ovárico doado é colocado dentro de uma cápsula de gel que:
- bloqueia células do sistema imunitário;
- mas permite a passagem de nutrientes e hormonas.
Assim, o tecido pode ser transplantado com menor risco de rejeição.
Como foi feito o estudo
Os investigadores testaram a abordagem em ratinhos com remoção dos ovários. Implantaram tecido ovárico humano de dadoras falecidas, encapsulado, e acompanharam os animais ao longo de 20 semanas, medindo hormonas, avaliando diariamente os ciclos (o equivalente ao ciclo menstrual nos ratinhos) e analisando o tecido no final.
O que observaram
- Ao fim de 12 semanas, os ratinhos começaram a ter ciclos regulares.
- Os ciclos não foram induzidos artificialmente: surgiram naturalmente, sugerindo integração do tecido encapsulado com o sistema endócrino do animal.
- Desenvolveram-se folículos grandes dentro da cápsula.
- Os níveis de estradiol (uma hormona-chave do estrogénio) aumentaram até valores considerados saudáveis.
A equipa refere que a encapsulação e o isolamento do tecido não prejudicaram a função, e que os níveis hormonais alcançados foram comparáveis aos obtidos com tecido não encapsulado.
O que falta testar
Este estudo foi feito em ratinhos com sistema imunitário comprometido, ou seja, a cápsula não teve de enfrentar uma resposta imunitária “normal”. Os próximos passos incluem:
- testar em ratinhos com sistema imunitário funcional;
- avaliar resultados a longo prazo;
- ajustar o processo para uma aplicação futura em contexto clínico.
A expectativa é que, no futuro, esta abordagem possa ajudar raparigas e jovens mulheres sobreviventes de cancro pediátrico a atingir níveis hormonais mais fisiológicos a longo prazo, com impacto positivo no bem-estar geral.
Fonte: Medical Xpress