O impacto emocional do cancro pediátrico pode prolongar-se muito para além do fim dos tratamentos. Um novo estudo publicado na revista científica Pediatric Research concluiu que sintomas de stress pós-traumático, ansiedade e depressão continuam a ser frequentes em sobreviventes de cancro pediátrico e nos seus pais mais de um ano após a conclusão da terapêutica.
A investigação foi conduzida por Maya Yardeni, psicóloga sénior na Divisão de Hemato-Oncologia Pediátrica do Sheba Medical Center (Israel), com coorientação de Ilanit Hasson-Ohayon, do Departamento de Psicologia da Bar-Ilan University (Israel), e de Dalit Modan-Moses, também do Sheba Medical Center (Israel).
O estudo traz novos dados sobre a forma como o trauma pode desenvolver-se em contexto clínico. No caso do cancro pediátrico, as crianças e as famílias são expostas a períodos prolongados de medo, procedimentos invasivos, hospitalizações repetidas e incerteza constante, fatores que podem deixar marcas psicológicas duradouras.
Segundo a equipa de investigação, mesmo após o fim dos tratamentos, muitas crianças e pais continuam a apresentar níveis elevados de stress emocional. A experiência da doença é vivida de forma partilhada: os pais acompanham todo o percurso clínico, o que expõe ambos a uma sensação contínua de ameaça e perda de controlo.
Para avaliar este impacto, os investigadores analisaram 118 sobreviventes de cancro pediátrico, com idades entre os sete e os 21 anos, e os respetivos pais, todos com pelo menos um ano de sobrevivência após o fim dos tratamentos. Foram utilizados questionários validados para avaliar sintomas de stress pós-traumático, ansiedade e depressão, bem como dados clínicos e sociodemográficos recolhidos dos processos médicos.
Os resultados mostram que o sofrimento psicológico continua a ser prevalente durante a sobrevivência — período que sucede ao fim dos tratamentos — e que os sintomas de trauma, ansiedade e depressão estão frequentemente interligados.
Um dado relevante identificado foi a discrepância entre a perceção dos pais e o relato das próprias crianças: a avaliação que os pais fazem do estado emocional dos filhos tende a estar mais associada ao seu próprio estado psicológico do que ao que as crianças referem sentir. Isto sugere que o sofrimento parental pode influenciar a forma como o bem-estar das crianças é interpretado.
Para além do contributo científico, o estudo deixa uma recomendação clínica clara: o acompanhamento em oncologia pediátrica deve ir além da vigilância física. A monitorização continuada da saúde psicológica de crianças e pais, bem como a disponibilização de apoio psicossocial ajustado, poderá melhorar significativamente os resultados a longo prazo.
Na continuidade deste trabalho, a equipa está a desenvolver um novo estudo focado na eficácia da psicoterapia orientada para o trauma dirigida a pais de sobreviventes de cancro pediátrico, com o objetivo de reduzir sintomas traumáticos persistentes e promover o bem-estar familiar.
Fonte: Medical Xpress