Uma revisão científica recente analisou o impacto da chamada viroterapia oncolítica — uma abordagem que utiliza vírus geneticamente modificados para atacar células tumorais — no tratamento de crianças e jovens com tumores cerebrais e tumores sólidos avançados.
Apesar dos avanços na oncologia nas últimas décadas, o prognóstico continua a ser reservado em situações de doença recorrente ou resistente aos tratamentos habituais, como acontece em alguns gliomas de alto grau, no glioblastoma ou em determinados sarcomas metastáticos. Para estes casos, a necessidade de terapias mais dirigidas e menos tóxicas mantém-se urgente.
O que é a viroterapia oncolítica?
A viroterapia oncolítica utiliza vírus alterados em laboratório para:
- Infetar seletivamente células cancerígenas
- Destruir essas células (oncolise)
- Ativar o sistema imunitário contra o tumor
Entre os vírus estudados estão variantes do vírus do herpes simples tipo 1, adenovírus, reovírus, poliovírus e o vírus Seneca Valley.
Esta estratégia procura não só eliminar o tumor diretamente, mas também tornar o ambiente tumoral mais reconhecível para as defesas naturais do organismo.
Como foi feita a revisão científica?
Os investigadores analisaram ensaios clínicos publicados entre dois mil e quinze e dois mil e vinte e cinco em várias bases de dados científicas internacionais, incluindo:
Foram incluídos apenas estudos com doentes até aos dezoito anos, avaliando segurança, eficácia e resposta imunitária.
No total, a revisão reuniu dados de dez ensaios clínicos de fase inicial, envolvendo cerca de cento e quinze crianças e adolescentes com tumores do sistema nervoso central ou tumores sólidos avançados, como neuroblastoma e rabdomiossarcoma.
Resultados de segurança
Um dos dados mais consistentes foi o perfil de segurança:
- Não foram registadas mortes relacionadas com o tratamento
- Os efeitos adversos foram maioritariamente ligeiros e temporários
- Os sintomas mais frequentes incluíram febre, fadiga, dor de cabeça, vómitos e inflamação local
- Apenas um caso apresentou toxicidade limitadora de dose
Também não foi observada replicação viral descontrolada nem disseminação sistémica.
Estes resultados são particularmente relevantes tendo em conta que muitas das crianças incluídas já tinham sido submetidas a vários tratamentos intensivos.
Sinais de eficácia clínica
Embora os ensaios analisados tenham sido desenhados sobretudo para avaliar segurança — e não eficácia — surgiram sinais encorajadores:
- Taxas de controlo da doença variaram entre vinte por cento e noventa por cento
- Em alguns tumores cerebrais, a sobrevivência média situou-se entre onze e dezoito meses
- Estudos com determinados adenovírus mostraram redução tumoral em cerca de um quarto a um terço dos casos
Ainda assim, os investigadores sublinham que os dados são preliminares e baseados em amostras pequenas, sendo necessária investigação adicional.
Ativação do sistema imunitário
Nove dos estudos incluíram análises biológicas detalhadas e mostraram que os vírus:
- Aumentaram a presença de células T (CD8⁺ e CD4⁺) no tumor
- Ativaram vias inflamatórias, como interferão-gama e interleucina-6
- Estimularam mecanismos de reconhecimento tumoral
Estes achados sugerem que a viroterapia pode funcionar como uma espécie de “vacina tumoral in situ”, tornando tumores menos visíveis ao sistema imunitário em lesões mais suscetíveis de resposta.
Limitações da evidência
A revisão identificou algumas limitações importantes:
- Estudos de pequena dimensão
- Ausência de grupos de controlo em vários ensaios
- Diferenças entre vírus, tumores e métodos de administração
Por esse motivo, o grau de certeza científica foi classificado como:
- Baixo para segurança
- Muito baixo para eficácia e sobrevivência
O que pode mudar no futuro?
Apesar das limitações, os dados apontam para um caminho promissor.
Os investigadores defendem que os próximos passos devem incluir:
- Ensaios multicêntricos de maior dimensão
- Estudos randomizados
- Combinação com radioterapia
- Associação a imunoterapias, como inibidores de checkpoints imunitários
A possibilidade de integrar vírus oncolíticos em estratégias combinadas poderá ampliar o efeito terapêutico, sobretudo em tumores pediátricos de difícil tratamento.
Em síntese
A evidência disponível indica que a viroterapia oncolítica:
- É segura e bem tolerada em contexto pediátrico
- Demonstra atividade biológica relevante
- Ativa o sistema imunitário contra o tumor
- Apresenta sinais iniciais de benefício clínico
Embora ainda em fases iniciais de investigação, esta abordagem começa a afirmar-se como uma potencial nova plataforma terapêutica no tratamento do cancro pediátrico, sobretudo quando integrada em estratégias combinadas.
Fonte: Cureus