Todos os anos, cerca de 400 000 crianças e adolescentes entre os 0 e os 19 anos são diagnosticados com cancro. Mais de 100 000 morrem, e mais de 80% dos casos e das mortes acontecem em países de baixo e médio rendimento. Atrasos no diagnóstico, falta de acesso a terapêuticas eficazes, abandono do tratamento, mortes por toxicidade e recidivas evitáveis continuam a pesar na sobrevivência.
A diferença entre países é clara: em contextos de alto rendimento, mais de 80% das crianças com cancro são curadas; em muitos países de baixo e médio rendimento, esse valor pode ser inferior a 30%. Estes números podem ainda estar subestimados, porque em várias regiões não existem registos populacionais de cancro e a investigação sobre sobrevivência a longo prazo é escassa.
Um retrato da investigação: 1 558 estudos em 43 países, mas quase todos em países ricos
Para perceber onde está a ser feita a investigação sobre sobreviventes de cancro pediátrico e que temas têm sido priorizados, uma equipa liderada por Melissa Martos analisou 1 558 estudos realizados em 43 países e territórios, entre 1980 e 2021.
O resultado é contundente: mais de 90% da investigação publicada baseou-se em estudos conduzidos em países de alto rendimento e, sobretudo, nas regiões combinadas das Américas e da Europa, apesar de a maior carga de doença estar nos países de baixo e médio rendimento.
A revisão mostrou ainda que o foco principal tem sido nos efeitos físicos do cancro e do tratamento — e que, em países de baixo e médio rendimento, esse desequilíbrio é ainda mais marcado, deixando muitas vezes para trás temas como saúde mental, promoção de saúde e prevenção de doença.
Matthew Ehrhardt sublinha a dimensão da disparidade: a maioria esperava que o grosso da investigação estivesse em regiões de alto rendimento, mas “95%” foi surpreendente. E acrescenta que os cerca de 1,2 milhões de sobreviventes nos Estados Unidos e na Europa representam apenas uma fração do número global de pessoas que entram em sobrevivência, cujas necessidades de saúde podem não estar refletidas no que já se estudou.
Porque é tão difícil fazer investigação em países com menos recursos
Segundo Ehrhardt, parte da explicação está no facto de a sobrevivência ser historicamente mais alta na América do Norte e na Europa (cerca de 85%), enquanto em muitos contextos de baixo recurso se mantém em 30% ou menos. Quando a prioridade é aumentar a taxa de cura, é comum que a sobrevivência a longo prazo fique em segundo plano.
Há ainda barreiras práticas:
- falta de infraestrutura e de mentoria para investigação;
- financiamento limitado, menos oportunidades de formação e de participação em conferências;
- dificuldade em identificar e voltar a envolver sobreviventes para estudos;
- e, em muitos casos, uma vontade legítima de “seguir em frente” após o tratamento, sem reabrir o tema do cancro.
O que pode ajudar a melhorar sobrevivência e cuidados de seguimento
O texto defende que melhorar a sobrevivência e os cuidados de longo prazo em países de baixo e médio rendimento exige:
- reforço de infraestrutura clínica;
- educação de famílias, escolas e cuidados de saúde primários para reconhecer sintomas e procurar cuidados rapidamente;
- melhor acesso a medicamentos e tecnologias essenciais;
- e estratégias para levar recomendações de vigilância a médicos de cuidados primários, que muitas vezes são quem acompanha estes jovens durante anos.
Meta global: 60% de sobrevivência até 2030
A Iniciativa Global para o Cancro Pediátrico, lançada em 2018, estabeleceu como objetivo chegar a pelo menos 60%de sobrevivência global até 2030, reduzindo sofrimento e melhorando qualidade de vida. O texto sublinha que uma parte relevante do trabalho passa por criar capacidade local: apoiar equipas e instituições a desenvolver protocolos de investigação, manter registos oncológicos e garantir apoio contínuo — sem depender sempre de centros de alto rendimento para liderar os estudos.
Orientações adaptadas ao contexto: quando “o padrão-ouro” não existe
Um dos pontos destacados é a necessidade de orientações clínicas ajustadas aos recursos disponíveis. Como exemplo, o rastreio “padrão-ouro” de cancro da mama em sobreviventes tratados com radioterapia torácica (mamografia anual e ressonância) pode não estar disponível em muitos países. A proposta é criar alternativas de seguimento realistas, com base na melhor evidência possível, para que profissionais e famílias não fiquem sem opções.
O essencial
A mensagem é simples: o número de sobreviventes de cancro pediátrico está a crescer, mas a investigação que orienta o seguimento e a prevenção de efeitos tardios continua concentrada onde a carga global é menor. Para reduzir desigualdades, será necessário produzir conhecimento e modelos de cuidados também nos países onde vivem a maioria das crianças com cancro — com dados, infraestrutura, recomendações adaptadas e seguimento que inclua não só o corpo, mas também saúde mental e qualidade de vida.
Fonte: The ASCO Post