Um estudo com mais de 250 adultos sugere que sobreviventes de cancro pediátrico podem apresentar um cérebro com sinais de envelhecimento mais avançado do que a idade real. Esta diferença foi associada a pior desempenho cognitivo e a sinais no sangue ligados a stress oxidativo e inflamação.
O trabalho analisou participantes do St. Jude Children’s Research Hospital (EUA), através do St. Jude Lifetime Cohort Study (EUA), que acompanha, a longo prazo, pessoas diagnosticadas com cancro em idade pediátrica.
O que significa “idade do cérebro”
Os investigadores estimaram a “idade do cérebro” com base em alterações na substância cinzenta e branca observadas em ressonância magnética. Para isso, usaram um algoritmo treinado com 50 mil ressonâncias de pessoas sem historial de cancro. No grupo geral, a margem de erro do algoritmo era de cerca de um ano.
Quem participou
Foram avaliados:
- 253 sobreviventes (cerca de metade homens) de tumores cerebrais, leucemia linfoblástica aguda e linfoma de Hodgkin;
- 43 pessoas de controlo, sem historial de cancro pediátrico.
Nos sobreviventes:
- a idade média na ressonância foi 31,7 anos;
- o tempo médio desde o diagnóstico foi 21,2 anos.
Além das imagens, os participantes fizeram testes neurocognitivos e análises ao sangue.
Resultados principais
- Em média, os sobreviventes apresentaram uma diferença de 6,6 anos entre a idade do cérebro e a idade real. Ou seja, um sobrevivente com 40 anos poderia ter um cérebro com aspeto semelhante ao de alguém com 46–47 anos.
- No grupo de controlo, essa diferença foi de 0,7 anos.
Grupo com maior impacto
O estudo indica que as mulheres que receberam radioterapia craniana e que foram diagnosticadas em idades mais jovens mostraram os sinais mais fortes de envelhecimento cerebral:
- mulheres tratadas com 40 Gy (ou mais) e diagnosticadas antes dos 10 anos tiveram, em média, uma diferença de idade do cérebro de 37,34 anos;
- quando o diagnóstico foi aos 10 anos ou mais (com 40 Gy ou mais), a diferença média foi 16,5 anos.
Ligações a dificuldades cognitivas
Os sobreviventes tiveram piores resultados do que o grupo de controlo em várias áreas, incluindo memória de trabalho, atenção, flexibilidade cognitiva, fluência, velocidade motora, aprendizagem e memória visual.
Também se observou que um aumento de 10 anos na “idade do cérebro” esteve associado a pior desempenho em:
- flexibilidade cognitiva
- velocidade de processamento motor
- memória de trabalho
- memória visual
- vocabulário, leitura e compreensão
O que pode estar por trás
Nos sobreviventes, sobretudo mulheres diagnosticadas antes dos 10 anos, os investigadores encontraram associações entre esta “idade do cérebro” e alguns marcadores no sangue, incluindo:
- marcadores ligados a risco vascular (como homocisteína e PCR de alta sensibilidade);
- marcadores ligados a stress oxidativo (como 8-hidroxiguanosina);
- DHEA sulfato (precursor de hormonas sexuais), com associação relevante em mulheres diagnosticadas antes dos 10 anos.
Os autores levantam a hipótese de que, em algumas mulheres, pode existir um papel de fatores hormonais (como o efeito protetor do estrogénio), mas referem que não tinham medições diretas de estrogénio para confirmar.
O que isto pode significar na prática
O estudo reforça a importância de reconhecer que queixas como problemas de memória ou dificuldade de concentração em adultos jovens sobreviventes de cancro pediátrico não devem ser desvalorizadas. A mensagem deixada pelos autores é que estas queixas podem ser um sinal precoce de algo que merece avaliação mais aprofundada.
Limitações e próximos passos
Os investigadores referem limitações, como o facto de ser um estudo de uma única instituição e não permitir provar causa e efeito entre biomarcadores e envelhecimento cerebral. Os próximos passos passam por analisar subgrupos mais específicos (por exemplo, tumores cerebrais tratados com radioterapia) e explorar intervenções mais “acionáveis”, incluindo abordagens para reduzir inflamação e stress oxidativo, bem como fatores de estilo de vida (sono, atividade física, nutrição e stress).
Fonte: Healio