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Sobreviventes de cancro pediátrico podem ter sinais de “envelhecimento acelerado” do cérebro

Um estudo com mais de 250 adultos sugere que sobreviventes de cancro pediátrico podem apresentar um cérebro com sinais de envelhecimento mais avançado do que a idade real. Esta diferença foi associada a pior desempenho cognitivo e a sinais no sangue ligados a stress oxidativo e inflamação.

O trabalho analisou participantes do St. Jude Children’s Research Hospital (EUA), através do St. Jude Lifetime Cohort Study (EUA), que acompanha, a longo prazo, pessoas diagnosticadas com cancro em idade pediátrica.

O que significa “idade do cérebro”

Os investigadores estimaram a “idade do cérebro” com base em alterações na substância cinzenta e branca observadas em ressonância magnética. Para isso, usaram um algoritmo treinado com 50 mil ressonâncias de pessoas sem historial de cancro. No grupo geral, a margem de erro do algoritmo era de cerca de um ano.

Quem participou

Foram avaliados:

Nos sobreviventes:

  • a idade média na ressonância foi 31,7 anos;
  • o tempo médio desde o diagnóstico foi 21,2 anos.

Além das imagens, os participantes fizeram testes neurocognitivos e análises ao sangue.

Resultados principais

  • Em média, os sobreviventes apresentaram uma diferença de 6,6 anos entre a idade do cérebro e a idade real. Ou seja, um sobrevivente com 40 anos poderia ter um cérebro com aspeto semelhante ao de alguém com 46–47 anos.
  • No grupo de controlo, essa diferença foi de 0,7 anos.

Grupo com maior impacto

O estudo indica que as mulheres que receberam radioterapia craniana e que foram diagnosticadas em idades mais jovens mostraram os sinais mais fortes de envelhecimento cerebral:

  • mulheres tratadas com 40 Gy (ou mais) e diagnosticadas antes dos 10 anos tiveram, em média, uma diferença de idade do cérebro de 37,34 anos;
  • quando o diagnóstico foi aos 10 anos ou mais (com 40 Gy ou mais), a diferença média foi 16,5 anos.

Ligações a dificuldades cognitivas

Os sobreviventes tiveram piores resultados do que o grupo de controlo em várias áreas, incluindo memória de trabalho, atenção, flexibilidade cognitiva, fluência, velocidade motora, aprendizagem e memória visual.

Também se observou que um aumento de 10 anos na “idade do cérebro” esteve associado a pior desempenho em:

  • flexibilidade cognitiva
  • velocidade de processamento motor
  • memória de trabalho
  • memória visual
  • vocabulário, leitura e compreensão

O que pode estar por trás

Nos sobreviventes, sobretudo mulheres diagnosticadas antes dos 10 anos, os investigadores encontraram associações entre esta “idade do cérebro” e alguns marcadores no sangue, incluindo:

  • marcadores ligados a risco vascular (como homocisteína e PCR de alta sensibilidade);
  • marcadores ligados a stress oxidativo (como 8-hidroxiguanosina);
  • DHEA sulfato (precursor de hormonas sexuais), com associação relevante em mulheres diagnosticadas antes dos 10 anos.

Os autores levantam a hipótese de que, em algumas mulheres, pode existir um papel de fatores hormonais (como o efeito protetor do estrogénio), mas referem que não tinham medições diretas de estrogénio para confirmar.

O que isto pode significar na prática

O estudo reforça a importância de reconhecer que queixas como problemas de memória ou dificuldade de concentração em adultos jovens sobreviventes de cancro pediátrico não devem ser desvalorizadas. A mensagem deixada pelos autores é que estas queixas podem ser um sinal precoce de algo que merece avaliação mais aprofundada.

Limitações e próximos passos

Os investigadores referem limitações, como o facto de ser um estudo de uma única instituição e não permitir provar causa e efeito entre biomarcadores e envelhecimento cerebral. Os próximos passos passam por analisar subgrupos mais específicos (por exemplo, tumores cerebrais tratados com radioterapia) e explorar intervenções mais “acionáveis”, incluindo abordagens para reduzir inflamação e stress oxidativo, bem como fatores de estilo de vida (sono, atividade física, nutrição e stress).

Fonte: Healio

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