O impacto dos plásticos na saúde humana está a tornar-se cada vez mais claro — e preocupante. Novos dados revelados pela The Lancet destacam os perigos crescentes que estas substâncias representam, especialmente para crianças e jovens em desenvolvimento. Presentes em quase tudo no nosso dia a dia, os plásticos contêm milhares de químicos que podem afetar o organismo desde o útero até à vida adulta.
Um dos alertas mais preocupantes prende-se com a possível relação entre certos químicos presentes nos plásticos e o desenvolvimento de cancro pediátrico. Entre as substâncias identificadas estão os ftalatos, bisfenóis e retardadores de chama bromados — compostos encontrados em brinquedos, embalagens de alimentos, artigos escolares, mobiliário e até em dispositivos médicos. Estudos mostram que muitos destes químicos são absorvidos pelo corpo, sendo detetados no sangue, placenta, leite materno, cérebro, pulmões, rins e outros órgãos.
A exposição pode começar ainda durante a gravidez. A transferência de microplásticos e nanoplásticos da mãe para o feto já foi demonstrada em vários estudos internacionais. Os investigadores alertam para o facto de esta exposição precoce estar associada a alterações hormonais, problemas no desenvolvimento neurológico, menor peso à nascença e maior risco de doenças crónicas — entre as quais se incluem alguns tipos de cancro pediátrico.
A Comissão Minderoo–Monaco e o The Lancet Countdown on Health and Plastics concluíram que os plásticos prejudicam a saúde humana em todas as fases do seu ciclo de vida: desde a extração de combustíveis fósseis, à produção, utilização e eliminação. E são as crianças — devido à sua fisiologia em desenvolvimento — quem está mais vulnerável aos seus efeitos.
Nos países com menor capacidade de reciclagem, grande parte dos resíduos plásticos é queimada ao ar livre, libertando poluentes perigosos que afetam diretamente populações inteiras, incluindo grávidas e crianças. Em muitos casos, comunidades expostas a estas substâncias registam mais casos de doenças respiratórias, nascimentos prematuros, anomalias congénitas e cancros.
Apesar do crescente corpo de evidência científica, mais de dois terços dos químicos usados em plásticos continuam sem avaliação pública sobre os seus efeitos na saúde. Sem dados, sem regulamentação — e, muitas vezes, sem alternativas seguras.
Neste contexto, a ONU está a negociar um tratado internacional para combater a poluição por plásticos. Enquanto isso, o The Lancet lançou uma nova ferramenta de monitorização global — o Countdown on Health and Plastics — que vai acompanhar os impactos dos plásticos na saúde humana, com especial atenção às populações mais vulneráveis.
Os especialistas defendem uma abordagem de precaução: reduzir a exposição, sobretudo na infância, e repensar o uso de plásticos em produtos que entram em contacto direto com crianças, como biberões, chupetas, brinquedos e embalagens alimentares.
“Temos de colocar a saúde no centro do debate sobre plásticos”, afirmam os autores do relatório. Porque por trás de cada embalagem descartável pode estar um risco com consequências reais na vida das crianças.
Fonte: The Lancet