Um estudo publicado a 19 de janeiro de 2026 no European Journal of Endocrinology indica que 31,3% dos sobreviventes de cancro pediátrico na Alemanha apresentam pelo menos uma doença endócrina ou metabólica — quase o dobro do observado na população geral (16,4%).
A condição mais frequente foi o hipotiroidismo.
Como foi feito o estudo
Os investigadores analisaram dados de 11 863 sobreviventes que tinham ultrapassado os cinco anos após o diagnóstico de cancro pediátrico. Estes doentes:
- tinham uma idade média de 21,1 anos;
- estavam, em média, 14,6 anos após o diagnóstico;
- 44,1% eram mulheres.
Os participantes tinham sido diagnosticados entre 1991 e 2011 e tiveram cobertura de seguro contínua entre 2017 e 2021.
O grupo foi comparado com 35 589 pessoas seguradas, selecionadas aleatoriamente, sem historial de cancro pediátrico, emparelhadas por idade, sexo, região e cobertura de seguro.
O que foi medido
O estudo avaliou a frequência de doenças endócrinas e metabólicas, incluindo:
- doenças da tiroide e cancro da tiroide;
- alterações hipofisárias;
- disfunção ovárica e testicular;
- perturbações da puberdade;
- diabetes tipo um e tipo dois;
- obesidade;
- alterações das glândulas suprarrenais.
Principais resultados
- Ter pelo menos uma doença endócrina/metabólica foi quase duas vezes mais frequente nos sobreviventes do que no grupo de comparação (31,3% vs 16,4%; razão de prevalência 1,9).
- No grupo de sobreviventes, a frequência foi maior em mulheres do que em homens (36,9% vs 26,9%).
- O hipotiroidismo foi a condição mais comum, afetando 15,85% dos sobreviventes.
- Observou-se um aumento muito marcado do risco relativo para:
- cancro da tiroide como novo tumor (razão de prevalência 43,5);
- hipopituitarismo (razão de prevalência 35,0).
O estudo refere ainda que, para muitas condições, a frequência aumentou com a idade, reforçando a ideia de que os efeitos tardios podem surgir anos após o fim do tratamento.
Porque isto importa para famílias e profissionais de saúde
Os autores sublinham que muitas destas doenças podem começar com sintomas pouco específicos — ou até sem sintomas — o que pode atrasar o diagnóstico e o tratamento. Como algumas alterações endócrinas também influenciam outros riscos (por exemplo, saúde óssea e risco cardiovascular), a deteção precoce pode fazer diferença no bem-estar e na saúde a longo prazo.
O que o estudo defende
A conclusão é clara: é necessária maior atenção clínica às complicações endócrinas em sobreviventes de cancro pediátrico, com:
- acompanhamento de longo prazo adaptado ao risco;
- estratégias específicas por sexo;
- rastreio precoce, desde idades jovens, para identificar problemas antes de se agravarem.
Fonte: Medscape