Joana Afonso e Rute Matias são duas das musicistas que levam música aos hospitais com um objetivo muito claro: devolver humanidade a quem está doente, seja criança, idoso ou profissional de saúde. Através do projeto Música nos Hospitais, promovem momentos de partilha e bem-estar, ajudando a aliviar o sofrimento de quem vive ou trabalha em contexto hospitalar.
O projeto é promovido pela associação de solidariedade Música nos Hospitais, que há vários anos leva duplas de músicos a unidades de saúde de todo o país. Com um carrinho cheio de instrumentos — alguns comprados, outros construídos a partir de materiais do dia a dia ou até de objetos hospitalares — estes músicos fazem intervenções musicais com um propósito claro: humanizar os cuidados e criar ligações reais com as pessoas que encontram.
Música feita com intenção, nunca por acaso
As intervenções não são espetáculos. Não há palmas nem aplausos, nem se espera reconhecimento. Como explica Joana, o que fazem “não é para os egos”. O objetivo é criar um momento de presença, escuta e ligação emocional, seja com utentes, cuidadores ou profissionais de saúde.
Nada é ensaiado: começam sempre com uma música neutra, mas adaptam o tom consoante o ambiente que encontram. Procuram canções que tragam memórias, conforto e, acima de tudo, dignidade. “A música é um veículo para que as pessoas se liguem umas às outras, às emoções, e se lembrem de que são humanas”, refere Joana.
Momentos que marcam
A emoção faz parte do trabalho. Em 15 anos a atuar em hospitais, Rute teve de se afastar duas vezes para chorar. Uma dessas vezes foi ao ver uma mãe receber o diagnóstico de cancro do filho, numa unidade pediátrica. “Tinha um filho pequeno na altura, foi muito difícil.”
Mas também há momentos inesquecíveis de beleza. Numa das intervenções, entraram num quarto onde tinham sido avisadas de que a doente “já não reagia”. Rute cantou uma música dos Madredeus, Andorinha. Quando estavam a sair, a senhora murmurou “Andorinhas, Andorinhas”. “Foi muito impactante”, recorda.
Joana já testemunhou um doente morrer enquanto tocava. Mas, mesmo nesses momentos, sente que o gesto é importante: “É a vida a acontecer. E poder contribuir para que isso aconteça de forma mais humana é um privilégio.”
Música como cuidado
Ao contrário de um concerto, onde se espera agradar ao público, aqui a música é oferecida. Não há lugar para o ego. “Se há palmas, é porque algo correu menos bem”, diz Joana. A verdadeira resposta vem dos olhares, das reações subtis, do ambiente transformado por instantes.
Para as duas, cada intervenção é uma troca: “Levamos sempre o dobro do que damos.” E é esse impacto silencioso, mas profundo, que continua a dar sentido ao projeto Música nos Hospitais — uma forma de cuidar que não passa por palavras ou receitas, mas por sons, emoções e humanidade.
Fonte: Health News