O Children’s National Hospital (EUA) vai iniciar um novo ensaio clínico para crianças com sarcomas e outros tumores sólidos que não responderam a tratamentos convencionais como quimioterapia e radioterapia. Esta iniciativa representa um avanço num dos maiores desafios da oncologia pediátrica, onde pouco progresso foi feito nas últimas três décadas.
Catherine Bollard, responsável de investigação do hospital, afirma que este poderá ser o momento mais importante da sua carreira. O ensaio propõe uma abordagem inovadora, ao utilizar células T do próprio doente modificadas para atacar simultaneamente dois alvos presentes nos tumores: PRAME, uma proteína que promove o crescimento tumoral, e B7-H3, que ajuda o cancro a escapar ao sistema imunitário.
Segundo Bollard, este duplo ataque dificulta a capacidade do tumor de se adaptar:
“Se a célula cancerígena perceber que está a ser atacada num único alvo, consegue muitas vezes eliminar esse alvo. Mas, ao atingir dois em simultâneo, é muito mais difícil escapar.”
Cada tratamento requer cerca de duas a três semanas para preparar as células T, mais uma semana para garantir a sua segurança antes de serem administradas.
Um projeto internacional para um problema persistente
Este ensaio faz parte do programa Cancer Grand Challenges, um esforço conjunto do National Cancer Institute (EUA) e da Cancer Research UK (Reino Unido), que investiu 470 milhões de dólares para enfrentar os problemas mais difíceis no cancro, incluindo os tumores sólidos pediátricos. Outros dois ensaios semelhantes estão a decorrer na University College London (Reino Unido) e no Boston Children’s Hospital (EUA).
Nos EUA, registam-se cerca de 3 700 novos casos de tumores sólidos pediátricos por ano. A raridade destes cancros tem dificultado o investimento da indústria farmacêutica. Como explica Cindy Schwartz, médica com décadas de experiência em tumores ósseos pediátricos, como o osteossarcoma (com cerca de mil casos por ano, metade em crianças), “os tratamentos pouco mudaram nas últimas décadas”.
Além disso, terapias eficazes em adultos nem sempre funcionam em crianças. Um exemplo são os inibidores de checkpoint — como o Opdivo — que, embora eficazes em cancros de adultos, não têm mostrado bons resultados em tumores pediátricos. Acredita-se que isto se deve ao microambiente tumoral nas crianças, que é biologicamente diferente e menos exposto a agentes infecciosos ao longo da vida.
A importância da experiência vivida
Abbe Pannucci, sobrevivente de um tumor sólido pediátrico, será uma das representantes dos doentes neste ensaio. Hoje com 25 anos, sobreviveu a um rabdomiossarcoma em estádio 4, diagnosticado aos 10 anos, com uma taxa de sobrevivência inferior a 30%. Passou por 54 sessões de quimioterapia, que a deixaram infértil e em risco de desenvolver outros cancros. Agora, dedica-se a tornar a ciência acessível a crianças doentes e às suas famílias.
Outro exemplo é o de Gavin Lindberg, que criou a EVAN Foundation (EUA) em homenagem ao filho, Evan, que morreu aos 7 anos após quatro anos a lutar contra um neuroblastoma. As células de Evan foram doadas para investigação.
O ensaio clínico agora aprovado foi preparado ao longo de três anos. A equipa demonstrou que o novo tratamento é tão seguro quanto os que atacam apenas um alvo tumoral. O objetivo é claro: se funcionar de forma consistente, poderá representar um verdadeiro ponto de viragem nos tratamentos para o cancro pediátrico resistente.
Como sublinha Bollard:
“Se funcionar uma ou duas vezes, não é suficiente. Se funcionar dez vezes, talvez estejamos perante algo realmente importante.”
Fonte: The Washington Post