Há 50 anos, crianças com uma forma agressiva de leucemia tinham uma probabilidade de sobrevivência muito reduzida, passando do diagnóstico à morte em poucos meses.
Hoje em dia, 90% das crianças com neoplasia maligna do sangue, denominada leucemia linfoblástica aguda, curam-se.
Esta história de sucesso – intrinsecamente ligada a Filadélfia, nos Estados Unidos – é ainda mais fenomenal do que parece. A leucemia linfoblástica aguda representa quase um terço dos cancros pediátricos diagnosticados, que ascende aos 2 900 casos anuais, só nos Estados Unidos. Esta doença, considerada, ainda hoje, rara, consegue ligar gigantes da pesquisa em oncologia, descobertas científicas, fármacos revolucionários e filantropos.
“O caminho que temos percorrido para curar a maioria das crianças com leucemia linfoblástica aguda pode ser o caso de maior sucesso na história da oncologia”, disse a American Society of Hematology.
No mês passado, foi adicionado um novo capítulo a esta história. Um painel de especialistas divulgou as primeiras diretrizes internacionais de tratamento para a doença.
Para comemorar esta história inspiradora, aqui ficam alguns destaques históricos.
A primeira terapia eficaz
Sidney Farber, o cientista que deu o nome ao Dana-Farber Cancer Institute de Boston, é considerado o pai da quimioterapia moderna. Além de ser um cientista inovador, este homem foi considerado um génio da captação de recursos, e a sua colaboração com outras pessoas notáveis, incluindo a filantropa Mary Lasker, levou a que o orçamento do Instituto Nacional de Cancro norte-americano quadruplicasse entre 1957 e 1967.
Mas nem sempre as coisas foram fáceis para Sidney, que no início de 1940 não tinha o apoio que necessitava; na altura, o jovem patologista do Hospital Infantil de Boston não conseguia ajudar as crianças que via a morrer de leucemia na ala pediátrica daquele hospital.
Estudioso, o médico sabia que alguns estudos durante a II Guerra Mundial mostraram que o ácido fólico, uma vitamina essencial, poderia curar certas anemias causadas por uma deficiência nos glóbulos vermelhos saudáveis. Sidney teorizou que o ácido fólico também poderia tratar a leucemia, na qual a medula óssea expele células brancas do sangue imaturas, chamadas linfoblastos, que crescem incontrolavelmente.
“Sidney tentou esta abordagem em algumas crianças, mas não era suficiente. O tratamento falhou e o estado de saúde das crianças piorou”, conta a American Society of Hematology.

Depois de uma experiência falhada, o médico argumentou que talvez o ácido fólico estimulasse ainda mais a medula óssea pelo que, se calhar, um bloqueador de ácido fólico pudesse conter esse crescimento.
Coincidentemente, a empresa farmacêutica Lederle estava a testar o primeiro antagonista do ácido fólico, chamado aminopterina; este antagonista tinha efeitos secundários perigosos, mas funcionou, tal como Sidney previra.
Em 1947, Sidney forneceu o fármaco a 16 crianças; dessas, 10 tiveram melhorias drásticas, mas temporárias; ainda assim, o seu estudo foi publicado no New England Journal of Medicine.
A próxima descoberta, em 1950, foi o desenvolvimento do 6-MP (mercaptopurina) por Gertrude Elion e George Hitchings, dois cientistas que acabariam por receber o Prémio Nobel.
O fármaco interrompeu o ADN de células cancerígenas de crescimento rápido e foi eficaz, não só contra a leucemia linfoblástica aguda, mas também contra leucemias de adultos e contra a colite ulcerativa. Mais ou menos na mesma época, foram introduzidos corticosteroides de combate à inflamação, como o metotrexato, o que melhorou ainda mais a probabilidade de sobrevivência de crianças com a doença.
Contudo, os linfoblastos acabavam por desenvolver resistência, o que enviava as crianças para uma espiral descendente.
Terapia total
Em 1962, Danny Thomas – comediante, cantor, ator e devoto – cumpriu uma promessa ao santo padroeiro das causas desesperadas ao inaugurar o St. Jude Children’s Research Hospital, em Memphis.
Até hoje, o hospital afirma que “as famílias nunca recebem uma conta para tratamento, viagem, moradia ou alimentação”.
Donald Pinkel foi indicado como o primeiro CEO e diretor clínico da instituição; Donald era um oncologista especializado em curar leucemia linfoblástica aguda.

Mas ainda existiam grandes obstáculos para conseguir a cura total da leucemia: a resistência aos medicamentos, a toxicidade destes, o colapso do sistema nervoso central e, acima de tudo, o pessimismo de médicos que assumiam que a leucemia linfoblástica aguda era imbatível.
A equipa de Donald colaborou com outros centros médicos para realizar testes clínicos inovadores com base num regime que envolvia vários medicamentos e radioterapia.
Chamado de “Terapia Total”, este tratamento é a espinha dorsal do atual protocolo de tratamento intensivo, que normalmente consiste em três anos de quimioterapia divididos em quatro partes: induzir a remissão; eliminar a doença indetetável; prevenir a recidiva com medicamentos de manutenção; e erradicar o cancro escondido no sistema nervoso central.
No final da década de 1960, a “Terapia Total” curava quase metade das crianças com a doença.
No mês passado, a Sociedade Americana de Oncologia Clínica distinguiu Donald Pinkel, agora com 92 anos, com o prémio Giants of Cancer Care, um dos muitos que recebeu durante a sua longa carreira.

Terapia direcionada
Apesar do enorme progresso, um subconjunto de crianças com leucemia linfoblástica aguda continuava a ter um prognóstico sombrio, mesmo com a quimioterapia padrão.
Mas dois cientistas, David Hungerford e Peter Nowell, fizeram uma descoberta surpreendente: a doença era impulsionada por um defeito genético, o cromossoma Filadélfia.
Quando os dois cientistas “espiaram através de um microscópio e viram aquele material genético que viria a ser conhecido como cromossoma Filadélfia, não poderiam ter previsto a importância que aquilo teria para a medicina, desencadeando uma reação em cadeia que eventualmente permitiu o desenvolvimento de tratamentos direcionados e personalizados para o cancro”, lê-se num artigo de tributo escrito pela Universidade da Pensilvânia, onde Peter Nowell era professor.

A identificação desse cromossoma anormalmente curto lançou as bases para o desenvolvimento de “inibidores de tirosina quinase”, uma classe de fármacos que interfere nos sinais do crescimento celular.
O inibidor a ser identificado foi o Gleevec (imatinib); inicialmente aprovado para o tratamento da leucemia em adultos, o seu uso foi expandido a pacientes pediátricos com leucemia linfoblástica aguda, em 2013.
Segundo o National Cancer Institute, o Gleevec “transformou o tratamento de leucemia e a pesquisa do cancro”.
Com os inibidores de tirosina quinase, cerca de 70% das crianças com leucemia linfoblástica aguda com cromossoma Filadélfia positivo ficaram curadas.
Hoje, o foco da pesquisa da leucemia linfoblástica aguda mais recente é a identificação dos fatores genéticos da doença de cada criança, adaptando a intensidade do tratamento para minimizar a toxicidade.
Como resultado, a radioterapia cerebral é agora muito raramente usada; no passado, este tratamento deixou muitas crianças com danos cognitivos e no crânio, disse o oncologista pediátrico da Universidade Johns Hopkins, Patrick Brown, que é também o autor das diretrizes internacionais de tratamento publicadas no mês passado pela National Comprehensive Cancer Network.
Imunoterapia
Em abril de 2012, Emily Whitehead, de 6 anos, natural de Philipsburg, na Pensilvânia, foi internada no Hospital Infantil da Filadélfia.
Os médicos consideraram que aquele era um caso complicado, e a jovem lutava para se manter viva. Emily recidivou duas vezes nos dois anos seguintes ao seu diagnóstico de leucemia linfoblástica aguda, apesar dos incansáveis ciclos de quimioterapia.

Demasiado doente para um transplante de células estaminais, uma técnica usada em último recurso, no qual as células sanguíneas que dão origem ao sistema imunitário são eliminadas e substituídas por células de um doador.
A única esperança de Emily era uma terapia experimental feita pela engenharia genética das suas próprias células T de combate a doenças para atacar as suas células cancerígenas.
Construída ao longo de 20 anos de pesquisa, liderada por Carl June da Universidade da Pensilvânia, a nova terapia já havia sido testada em 6 adultos com cancro no sangue; dos 6 pacientes, 2 experimentaram a remissão.
O primeiro caso de tratamento pediátrico não ocorreu sem problemas. As células T projetadas desencadearam uma reação exagerada, e Emily sofreu uma falência de órgãos. Desesperados, os médicos deram à menina um novo fármaco de moderação imunológica.
Este fármaco salvou-a e tornou-se uma parte vital do protocolo da imunoterapia.
8 dias depois, Emily recuperou a consciência e o seu oncologista, o médico Stephan Grupp, anunciou que os testes mostravam que o cancro tinha desaparecido.
5 anos depois, a primeira terapia de células T do mundo, feita pela Novartis e chamada Kymriah, foi aprovada para o tratamento da leucemia linfoblástica aguda; no ano seguinte, este tratamento foi também aprovado para uma forma de linfoma de adultos.
Emily, agora com 14 anos, celebrou no passado mês de maio uma marca importante: está há 7 anos livre de cancro.
Eternamente agradecidos, os pais de Emily, Tom e Kari, criaram uma organização de apoio à pesquisa para o cancro infantil.

A história de Emily, e de outros sobreviventes e cientistas, é contada no documentário de Ken Burns, “Emperor of All Maladies”, baseado no livro vencedor de um prémio Pullitzer “Biography of Cancer”, da autoria de Siddhartha Mukherjee.
É aliás neste livro que está presente uma frase que resume o longo, e vitorioso, processo contra a leucemia linfoblástica aguda: “As células cancerígenas podem estar a evoluir, mas os tratamentos para as eliminar também estão”.
Fonte: Inquirer