Como integrar terapias complementares nos cuidados oncológicos de forma segura, responsável e baseada na evidência? Foi também a partir desta questão que nasceu o Duplo Sentido Oncology Coaching, um projeto criado pelas enfermeiras oncologistas Joana Silva e Manuela Santos.
A iniciativa procura criar uma ponte entre a oncologia convencional e os cuidados integrativos, ajudando pessoas com diagnóstico oncológico e as suas famílias a compreender melhor o percurso da doença e, simultaneamente, promovendo a formação e a literacia dos profissionais de saúde nesta área.
Em setembro, o Duplo Sentido promove uma nova edição da sua formação em oncologia integrativa pediátrica. Nesta entrevista ao PIPOP, Joana Silva e Manuela Santos explicam o que significa, na prática, uma abordagem integrativa, quais os cuidados necessários quando se recorre a terapias complementares e porque é essencial garantir a articulação com as equipas clínicas.
“A oncologia integrativa deve ser feita com conhecimento, prudência, articulação e transparência. Não deve criar falsas promessas, nem alimentar a ideia de cura milagrosa.”
Como nasceu o projeto Duplo Sentido e que necessidade sentiram existir nesta área?
O Duplo Sentido Oncology Coaching nasceu da experiência clínica de duas enfermeiras oncologistas que, ao longo dos anos, foram percebendo que muitas pessoas com diagnóstico de cancro e as suas famílias ficam profundamente fragilizadas e desorientadas após o diagnóstico de patologia oncológica.
Entre exames, tratamentos, efeitos secundários, decisões clínicas, alterações na alimentação, dúvidas sobre suplementos, medo de interações e procura por outras terapias que possam proporcionar um melhor resultado e qualidade de vida, existe muitas vezes um espaço de grande confusão e enorme vulnerabilidade.
Sentimos que era necessário criar um espaço que ajudasse a traduzir a informação clínica, a organizar as prioridades e a apoiar a pessoa com diagnóstico oncológico de forma segura, humana e, ao mesmo tempo, realista. O objetivo do Duplo Sentido não é substituir a equipa médica, mas complementar o acompanhamento, ajudando cada pessoa a compreender melhor o seu percurso, a preparar-se para os tratamentos e a cuidar da sua qualidade de vida com maior segurança.
O nome “Duplo Sentido” reflete precisamente essa ponte: entre a oncologia convencional e os cuidados integrativos, entre a ciência e a humanidade, entre aquilo que é tratado no hospital e aquilo que a pessoa vive no seu dia a dia. E ainda a inclusão de dois saberes específicos das fundadoras: a Manuela é especialista em Medicina Tradicional Chinesa e a Joana é especialista em Saúde Mental, e sentimos que esta lacuna do nosso sistema de saúde teria de ser colmatada, uma vez que estas áreas devem fazer parte do arsenal terapêutico das pessoas com diagnóstico oncológico e das suas famílias.
Quando falamos de oncologia integrativa, o que é importante esclarecer às famílias e aos profissionais de saúde?
O primeiro ponto essencial é esclarecer a diferença entre complementar e alternativo. A oncologia integrativa não propõe substituir cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia ou terapêuticas dirigidas. Pelo contrário: parte do princípio de que o tratamento oncológico convencional é central e deve ser respeitado. E depois procura acrescentar intervenções complementares de suporte, com base em evidência e segurança, que possam ajudar na gestão de sintomas, na qualidade de vida, no bem-estar emocional, no sono, na fadiga, na dor, nas náuseas, na alimentação, na funcionalidade e na recuperação global da pessoa. Importa ainda referir que existem várias terapias complementares, acupuntura, hipnose, yoga, massagem, entre outras, que são recomendadas pelas principais sociedades científicas de oncologia convencional, como tratamentos de suporte para sintomas específicos, aumentando a qualidade de vida e permitindo à pessoa uma recuperação e funcionalidade maiores, permitindo o cumprimento dos planos terapêuticos convencionais propostos.
Também é importante explicar que “natural” não significa automaticamente seguro. Muitos suplementos, plantas, cogumelos medicinais ou produtos naturais podem interferir com medicamentos, alterar enzimas hepáticas, aumentar risco hemorrágico, interferir com a imunoterapia ou não ser adequados em determinados tratamentos ou momentos do tratamento.
Ainda, sempre que procurem áreas complementares devem acautelar que os profissionais de saúde a quem recorrem têm cédula profissional válida para a área de exercício e que têm conhecimento específico na área de oncologia.
Por isso, a mensagem central para famílias e profissionais é: a oncologia integrativa deve ser feita com conhecimento, prudência, articulação e transparência. Não deve criar falsas promessas, nem alimentar a ideia de cura milagrosa. Deve ser uma área de suporte, centrada na pessoa, executada por profissionais certificados e alinhada com a equipa médica.
Que cuidados devem existir quando se fala de terapias complementares em oncologia, sobretudo para garantir segurança, evidência científica e articulação com a equipa médica?
O primeiro cuidado é perguntar. Muitas pessoas usam suplementos ou terapias complementares sem informar a equipa clínica, por receio de serem julgadas ou de receberem uma resposta negativa. É fundamental criar um ambiente em que o doente se sinta seguro para falar abertamente sobre tudo o que está a fazer.
Depois, é necessário avaliar cada caso individualmente: diagnóstico, estádio da doença, tratamentos em curso, análises, função hepática e renal, risco de hemorragia, imunossupressão, sintomas, medicação habitual e objetivos da intervenção.
Outro ponto importante é distinguir práticas com melhor evidência de práticas sem suporte científico ou com risco. A acupuntura, por exemplo, tem recomendações em guidelines internacionais para sintomas como náuseas, dor, ansiedade, afrontamentos ou xerostomia, quando realizada por profissionais qualificados e com cuidados de segurança. Já alguns suplementos podem ser úteis em contextos específicos, mas devem ser avaliados caso a caso.
Também defendemos que qualquer intervenção complementar deve ter um objetivo claro: reduzir náuseas, melhorar sono, apoiar ingestão alimentar, aliviar dor, modular ansiedade, melhorar fadiga ou promover recuperação funcional. Quando não há objetivo, quando há promessas exageradas ou quando se aconselha a suspender tratamentos convencionais, estamos perante sinais de alerta.
A articulação com a equipa médica é essencial. Sempre que possível, deve existir comunicação clara com oncologistas, enfermeiros, nutricionistas, farmacêuticos e outros profissionais envolvidos. A segurança do doente tem de estar acima de qualquer abordagem terapêutica isolada.
Têm desenvolvido formação dirigida a profissionais de saúde nesta área. Que temas consideram mais importantes trabalhar e que impacto esperam ter junto das equipas clínicas?
A formação de profissionais de saúde é uma das áreas que consideramos mais importantes, porque muitos doentes já recorrem a suplementos, alimentação específica, acupuntura, fitoterapia ou outras terapias complementares — mesmo quando não falam sobre isso nas consultas.
Por isso, os profissionais precisam de estar preparados para perguntar, escutar, orientar e identificar riscos. Não se trata de transformar todos os profissionais em especialistas de oncologia integrativa, mas de lhes dar ferramentas para uma prática mais informada e segura.
Entre os temas que consideramos fundamentais estão: princípios de oncologia integrativa; segurança dos suplementos em oncologia; interações entre produtos naturais e tratamentos oncológicos; alimentação durante quimioterapia, radioterapia e imunoterapia; suporte na fadiga, náuseas, mucosite, neuropatia, dor e alterações do sono; papel da acupuntura e da acupressão; comunicação com o doente; e critérios para referenciação segura.
O impacto que esperamos ter junto das equipas clínicas é sobretudo aumentar literacia, reduzir riscos, combater desinformação e promover uma cultura de diálogo. Quando os profissionais estão informados, conseguem orientar melhor os doentes, evitar práticas perigosas e integrar estratégias de suporte com maior segurança.
Em setembro irão realizar um novo curso. A quem se destina, que temas serão abordados e como é que as pessoas interessadas poderão saber mais ou inscrever-se?
Em setembro teremos uma nova edição formativa na área da oncologia integrativa pediátrica, dirigida a profissionais de saúde que acompanham crianças e famílias e que sentem necessidade de aprofundar conhecimentos nesta área de forma segura, estruturada e baseada na evidência.
O curso destina-se a enfermeiros, médicos, nutricionistas, farmacêuticos, fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas de medicina tradicional chinesa, acupuntores e outros profissionais que trabalhem ou tenham interesse na área da oncologia pediátrica.
Serão abordados temas como os fundamentos da oncologia integrativa, segurança e limites das terapias complementares, alimentação, suplementação, fitoterapia, acupuntura, gestão de sintomas, comunicação com famílias e análise de casos clínicos.
O nosso objetivo é que os participantes saiam do curso com maior confiança para avaliar riscos, compreender a evidência disponível, orientar melhor os doentes e trabalhar em articulação com as equipas clínicas.
As pessoas interessadas poderão acompanhar a divulgação através dos canais habituais do Duplo Sentido, onde serão disponibilizadas as informações sobre programa, datas, formato, valores e inscrições.