Mariana Cravo, Serviço de Dermatologia do IPO de Lisboa
Os novos tratamentos para o cancro incluem a terapêutica-alvo, que consiste em medicamentos que destroem selectivamente as células malignas, e a imunoterapia, que funciona através da estimulação do sistema imunitário no combate à doença.
Apesar de serem um enorme e importante avanço na luta contra as doenças oncológicas, acarretam vários efeitos secundários na pele e seus anexos (cabelo e unhas) que não são desprezíveis, com impacto na qualidade de vida da criança, podendo resultar numa interrupção ou descontinuação do tratamento.
Os efeitos secundários cutâneos mais comuns destes medicamentos são inflamação, xerose (secura da pele) e comichão.
A secura da pele e comichão deverão ser abordadas da mesma forma que foi descrita para estes efeitos quando os mesmos são causados pela quimioterapia.
Uma forma de inflamação da pele bastante comum com a terapêutica-alvo são as erupções acneiformes. Nestas situações, a criança desenvolve uma inflamação da pele em tudo semelhante à acne. As áreas mais comuns atingidas são a face e o tronco, no entanto, em situações mais graves, a erupção pode estender-se a praticamente toda a pele, incluindo o couro cabeludo. Estas erupções surgem dias a semanas após o início do tratamento. Consoante a gravidade, podem ser prescritos líquidos desinfectantes para serem aplicados no banho como gel de limpeza, com enxaguamento, ou directamente na pele, sem enxaguar, assim como antibióticos e corticóides tópicos. É importante que a criança não seja exposta ao sol nesta fase, pois pode verificar-se um agravamento da erupção. Se necessário, dever-se-á proteger a pele com um creme fotoprotector. As “borbulhas” não deverão, em situação alguma, ser manipuladas ou espremidas, sob pena de se agravar a inflamação e causar infecção bacteriana secundária. Na fase de resolução desta erupção, observa-se comumente descamação, pelo que será importante o uso de um creme hidratante.
Outro efeito secundário comum com estes tratamentos são alterações das unhas, com inflamação da pele em redor e aparecimento de pequenos granulomas, que são bastante incómodos e, por vezes, dolorosos. O atingimento, único ou de várias unhas, pode atingir as mãos e/ou pés, surgindo após semanas ou meses do início do tratamento. Para prevenir e minimizar estas alterações é importante evitar-se o traumatismo local: se for o caso, é fundamental evitar que a criança roa as unhas e é desaconselhado o uso de calçado apertado e pouco flexível. As unhas deverão ser cortadas com muito cuidado para evitar feridas adicionais e manipuladas o mínimo possível.
A radiodermite aguda é um efeito comum da radioterapia, que pode surgir durante ou logo após o ciclo de tratamento. Consiste numa inflamação aguda da pele, sob a forma de vermelhidão, semelhante a uma queimadura, da área de pele que foi irradiada. Sintomas como dor e ardor podem estar presentes. É importante, durante o tratamento, seguir as indicações da equipa de radioterapia, nomeadamente no que diz respeito aos produtos que pode aplicar sobre a pele irradiada, sob pena de estes poderem interferir com a absorção da radiação e diminuir o seu efeito.
Antes de iniciar cada sessão de radioterapia, a pele deve estar limpa e sem resíduos de quaisquer cremes ou pomadas.
Durante o ciclo de tratamento, deverá ser aplicado, diariamente, uma fina camada de creme hidratante indicado pela equipa de radioterapia. O banho deve ser com água morna e uso sabonete não perfumado, evitando-se usar a força do jato de água do chuveiro diretamente na pele irradiada. No final, a pele deve ser seca com toalha macia e com leves toques. Dever-se-á evitar o uso de roupas justas, de ganga e lycra. A área de pele submetida a irradiação não poderá ser exposta ao sol durante todo o tratamento e, preferencialmente, durante o primeiro ano após o mesmo.