Uma equipa do St. Jude Children's Research Hospital, nos Estados Unidos, conduziu a maior análise feita até ao momento sobre a forma como adultos sobreviventes de cancro infantil veem a sua saúde a longo prazo.
Os cientistas descobriram que um número surpreendentemente elevado de sobreviventes mostrou falta de preocupação com o seu futuro bem-estar.
A análise de dados, que recorreu a questionários entregues a 15 620 sobreviventes, revelou que 31% não estavam preocupados com a sua saúde futura e que 40% não estavam preocupados com o desenvolvimento de novos cancros.
Esta descoberta é muito significativa, pois os avanços no tratamento do cancro infantil produziram um número crescente de sobreviventes a longo prazo (só nos Estados Unidos são já mais de 420 mil).
Além disso, esses sobreviventes correm um maior risco de desenvolver novos cancros e outros problemas médicos, cognitivos e psicológicos.
A equipa publicou as suas descobertas na Cancer.
“A comunidade médica aprendeu muito sobre os riscos enfrentados por este grupo de sobreviventes, mas ainda se sabia muito pouco sobre quais as noções que os próprios sobreviventes tinham acerca dos riscos dos efeitos secundários tardios”, disseram.
Para os autores, os estudos anteriores concentraram-se apenas no impacto psicológico que a doença tinha nos pacientes.
Os especialistas também compararam as respostas dos sobreviventes às respostas dadas por 3 991 irmãos de sobreviventes, questões essas que, segundo o estudo, são muito importantes, pois permitem “avaliar se as respostas dos sobreviventes são semelhantes às dos irmãos que, no fundo, são como os sobreviventes na maioria dos aspetos, mas não foram expostos ao cancro e ao seu tratamento”.
O estudo descobriu que a preocupação dos irmãos com a sua saúde futura era um pouco menor do que a preocupação dos sobreviventes.
“Esta semelhança foi a maior surpresa das nossas descobertas, pois apesar dos sobreviventes terem um risco muito maior de voltar a desenvolver um cancro, para além de outros problemas de saúde, a perceção do risco mostrada por eles não é compatível com o risco real”, explicaram os cientistas, que não conseguem perceber qual a causa subjacente desta falta de preocupação.
“Neste momento, podemos apenas especular, mas a razão que nos parece mais óbvia é que os sobreviventes podem não entender os riscos que correm, apesar dos esforços para educar os pacientes sobre os tratamentos, os riscos futuros e como minimizá-los. Sabemos, a partir de estudos anteriores, que nem todos os sobreviventes estão cientes dos tratamentos específicos que receberam e de como esses mesmos tratamentos podem aumentar os riscos de efeitos secundários tardios”, disseram.
“Outra possibilidade que colocámos prende-se com o facto de alguns sobreviventes poderem estar conscientes dos seus riscos, mas optarem por não se preocupar; ou então, pode até ser que alguns sobreviventes estejam a seguir as diretrizes de saúde dadas pelos profissionais, o que pode levar a esta falta de preocupação”, lê-se no estudo.
Os investigadores acreditam que serão necessárias mais pesquisas para compreender as motivações por detrás da falta de preocupação dos sobreviventes. Tais pesquisas terão como objetivo entender se a falta de preocupação é significativa em termos do comportamento de saúde dos sobreviventes.
Outros estudos também podem testar a eficácia de diferentes abordagens educacionais sobre os interesses e comportamentos de saúde dos sobreviventes.
“Se, no entanto, os sobreviventes estiverem cientes, mas não motivados o suficiente para se preocuparem, então terão que ser desenvolvidos mais mecanismos de educação motivacional. Seja como for, estas descobertas oferecem um novo conjunto de dados que nos podem ajudar a elucidar todos os sobreviventes sobre os riscos reais que correm”, esclareceu a equipa de investigação.