A investigadora Florence Janody e a sua equipa do Instituto Gulbenkian de Ciência, em Lisboa, identificaram um novo mecanismo através do qual a atividade do oncogene Src é limitada pelo esqueleto da célula (citoesqueleto), controlando o desenvolvimento de tumores.
Um oncogene é uma categoria de genes fundamental durante a evolução do cancro, uma vez que codifica proteínas cuja atividade é favorável ao seu desenvolvimento. Até à data, sabia-se que o oncogene Src estaria implicado num grande número de tipos de cancro humanos; no entanto, falta ainda perceber de que modo as células saudáveis restringem a sua atividade para não se tornarem cancerígenas.
Num artigo publicado na última edição da revista Oncogene, os investigadores em Portugal explicam que, usando a mosca da fruta Drosophila melanogaster como modelo, foi possível travar o desenvolvimento do tumor induzido pela alta atividade de Src, através da manipulação genética do citoesqueleto em tecidos da mosca.
Um dos principais componentes do citoesqueleto, a proteína actina, cria uma rede onde as moléculas podem mover-se no interior da célula. Esta rede impede a ação da atividade do oncogene, dada a elevada produção de uma molécula que resulta deste processo, a proteína actina capping.
Esta proteína impede a atividade de outras que são normalmente ativadas por elevados níveis de Src. A elevada presença destas proteínas é inversamente proporcional aos níveis de atividade do Src.
Os cientistas ressalvam que, quando a rede do citoesqueleto não é fortemente regulada, a atividade de oncogenes, tais como o Src, não é travada, e forma-se o tumor.
A investigadora Florence Janody explica que o citoesqueleto funciona como um “arame farpado” na luta contra o oncogene Src. O vencedor desta batalha é quem irá determinar se a célula se mantém saudável ou dará origem a um cancro.
Beatriz García Fernández e Barbara Jezowska, primeiras autoras deste trabalho, acrescentam que esta pesquisa indica que mutações nas moléculas que regulam o esqueleto da célula podem desempenhar um papel significativo no desenvolvimento do cancro, assumindo-se como indutoras durante as fases iniciais da doença, no sentido em que promovem a atividade dos oncogenes.
O estudo foi realizado no IGC e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.