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Pesquisa
Um projecto da Fundação Rui Osório de Castro


Métodos para tratar cancro pediátrico devem inspirar humanização do tratamento em adultos
2018-07-06
Fonte: Medical Xpress

Um diagnóstico de cancro é uma espécie de tempestade que vira a vida das pessoas ao contrário; nem sempre significa o fim da vida, mas é algo que a muda por completo, e para sempre. 

Poucas experiências na vida são tão cruéis quanto o cancro infantil, mas essa injusta motiva alguns dos melhores, mais gentis e sinceros cuidados médicos. 

De acordo com um artigo publicado na The Conversation, os médicos de oncologia de adultos podem aprender muito com as práticas realizadas pelos médicos que lidam com o cancro infantil. 

Com base numa pesquisa acerca da qualidade de serviços, realizada em mais de uma dúzia de centros de tratamento de cancro e hospitais de três países, são três as maneiras pelas quais o tratamento do cancro pediátrico pode melhorar a prestação de serviços oncológicos realizados em adultos. 

A empatia na assistência médica envolve o reconhecimento da ansiedade, do medo e de outras emoções e deve fornecer respostas genuinamente carinhosas a estas questões, para que se consiga responder, de forma eficaz, a uma criança que um dia está a brincar no parque infantil e no outro está a fazer um exame de ressonância magnética. 

Não estar preparado para o que pode advir de um diagnóstico de cancro é um grande fator de stress, pelo que os oncologistas pediátricos têm vindo a adotar maneiras de reduzir o medo dos tratamentos; se uma criança tem medo de agulhas, o especialista pode, por exemplo, ensinar o pequeno paciente a pintar com uma seringa. 

Em alguns hospitais dos Estados Unidos existe um dispositivo em forma de abelha, o Buzzy Bee, que vibra e alivia a dor, enviando sensações nos mesmos caminhos neurais que são afetados pela dor de uma injeção por colocação intravenosa.

No Monash Children's Hospital, na Austrália, um paciente pediátrico que precisa de um exame de ressonância magnética encontra-se primeiro com um especialista, que lhe explica tudo sobre a máquina e lhe mostra um desenho interativo sobre o exame. De seguida, a criança brinca com um urso de peluche de forma a recriar o exame que irá fazer para que perceba que nada de mal lhe irá acontecer. Por fim, o especialista desativa a máquina e deixa a criança entrar para que possa ver um filme e se sentir segura. 

Caso a criança lide bem com esta simulação, poderá fazer o exame real sem anestesia geral, o que reduz os riscos e os custos.

Outro dos exemplos de centros de cancro pediátrico que usam várias formas de brincadeira para abstrair os pacientes dos seus medos é o Centro de Radiação Peter MacCallum, também na Austrália, em que os pacientes pediátricos, e por vezes os seus irmãos, escolhem roupas de super-heróis para irem às consultas, e têm, durante o seu tratamento, uma equipa de filmagem a gravar todo o seu percurso para que, no final dos tratamentos, a criança possa receber um filme sobre a sua jornada. 

No tratamento do cancro infantil, a família da criança é uma fonte primária de apoio e, especialmente para pacientes mais jovens, de tomada de decisões. 

O cuidado centrado na família, incluindo a família do paciente no processo de cuidado, deve ser guiado por princípios de partilha de informações, respeito, colaboração, negociação e cuidado no contexto da família e da comunidade. A equipa de atendimento torna-se "parte da família" e deve mostrar interesse pela vida das famílias além do tratamento.

Os pais têm que ser defensores, protetores, encorajadores, construtores de confiança e cuidadores dos seus filhos enquanto as crianças lidam com os seus próprios medos. 

Os pais podem ter que tomar decisões difíceis, como continuar, ou não, tratamentos "curativos" para o que, em alguns casos, é quase certamente um cancro incurável. 

Nos casos de cancro infantil, as famílias são mais propensas a envolver-se no planeamento do tratamento, tal como se fossem membros da equipa médica, do que em casos de cancro em adultos. 

Um exemplo dessa parceria entre família e médicos é o caso de Susan, uma menina, na altura com 11 anos, que teve um tumor no cérebro. A equipa observou a criança durante 3 anos, e depois desse tempo quis remover o tumor, embora Susan não tivesse sintomas e o tumor não oferecesse risco de vida. A mãe de Susan pediu para adiar a cirurgia até a escola terminar e os médicos mudaram a data da cirurgia. 

Também Ben, um paciente com cancro de 4 anos de idade, passou longos períodos no hospital. Alguns fatores stressantes tornaram-se evidentes, o que fez com que os pais e a equipa clínica redigissem uma lista com aquilo que o Ben gostava e não gostava. As "regras de tratamento do Ben" foram colocadas na porta do seu quarto, o que deu à criança uma sensação de controlo durante os seus tratamentos. 

Incorporado em cada papel de serviço está o esforço discricionário, ou a diferença entre a quantidade de esforço que se traz para o trabalho e a quantidade mínima necessária para evitar consequências adversas. O esforço discricionário é voluntário, quase como um “esforço extra”.
 
A natureza emocional da oncologia pediátrica estimula a compaixão e o voluntariado do pessoal, uma combinação forte entre atitude e comportamento.

Voltemos ao caso de Susan e às suas memórias sobre o dia em que foi sujeita à cirurgia de remoção do tumor: “quando a Ava, a minha enfermeira, veio ter comigo antes da cirurgia, ela olhou-me nos olhos e disse: ‘Susan, vou fazer uma trança no teu cabelo, para nós só raparmos aquilo que precisamos’. Mas o que ela fez foi moldar a forma como eu me via ao espelho e os outros me viam enquanto recuperava da cirurgia. A Ava provavelmente não se lembra de fazer uma trança no meu cabelo, mas esse momento esteve sempre comigo nos últimos seis anos”. 

Susan é hoje uma jovem saudável, com 20 anos de idade, e é a prova viva de que o voluntariado compassivo é algo muito importante para a recuperação de uma criança. 

Resumindo, a criatividade empática, o cuidado centrado na família e o voluntariado compassivo podem ser um verdadeiro colete salva-vidas quando o cancro ataca. 

Comuns no tratamento do cancro infantil, estes indicadores são práticos e devem ser utilizados em todos os pacientes com cancro, seja qual for a idade.
 
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