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Um projecto da Fundação Rui Osório de Castro


Oncologista Pediátrica do S. João lança nota de opinião sobre polémica que envolve instituição
2018-05-15
Fonte: PIPOP

Mais uma vez vem a público a problemática da Oncologia Pediátrica no Hospital de S. João, assunto que acompanho e onde trabalho há quase 30 anos! Trata-se de uma polémica que remonta ao século passado, que sempre acompanhei, que já conheceu múltiplos protagonistas e decisores e que não pode ser entendida, como quase nada, sem referência histórica e desenquadrada da Pediatria na Região Norte. 

Mais uma vez sinto o apelo e obrigação de dar a minha perspectiva sobre o assunto, correndo o risco, caso não o faça, de ser acusada de deixar correr e ser levada pelos acontecimentos e “impulsos” motivados pela comunicação social, a qual tem virtudes, mas peca de uma forma geral pela abordagem superficial, por vezes leviana e sensacionalista na abordagem de assuntos sensíveis, quer para instituições, profissionais e, principalmente, para Pais de crianças profundamente doentes. 

Há muitos anos que reflicto e luto sobre este assunto e sobre quais as condições necessárias a uma prática de excelência para a Oncologia Pediátrica. Não estão em causa pessoas ou instituições. Todas as Unidades de Oncologia Pediátrica do País reconhecem as suas virtualidades e fragilidades e todas sem excepção as têm. Trata-se, entretanto, de criar uma ordem de valor. 

A história de cada uma das Unidades e do seu percurso está com cada uma e, cada qual, tem tentado ao nível das suas possibilidades lutar pelas suas virtudes e combater os aspectos menos positivos. Foi sempre o meu entendimento, alicerçado por uma prática contínua no campo e por discussões e inquéritos múltiplos a “experts” internacionais, de que a prática da Oncologia Pediátrica integrada num grande Departamento/Hospital Pediátrico, por sua vez integrado num grande Hospital Universitário terciário, com grande componente de oncologia de adultos, é o modelo perfeito e é precisamente o que temos no Hospital de S. João. 

Passo a explicar porquê: os doentes oncológicos pediátricos necessitam de uma ambiência multidisciplinar pediátrica colocada, onde se incluem cirurgiões pediátricos e neurocirurgiões em presença física permanente, cuidados intensivos pediátricos e as várias valências e subespecialidades pediátricas. Os oncologistas pediátricos não trabalham sozinhos, nem os recursos pediátricos multidisciplinares podem ser rentabilizados só para as crianças oncológicas. Trata-se de uma questão de segurança no tratamento destes doentes. Porquê a necessidade de um grande Hospital Universitário terciário e com grande componente de oncologia de adultos? Serviços como radioterapia, anatomia patológica, imagiologia, etc. não podem ser rentabilizados só com doentes pediátricos e, o aumento da idade pediátrica e o consequente aparecimento de neoplasias do “tipo adulto” tornam vantajosa a colocação de oncologistas e cirurgiões de adultos para que possa haver discussões comuns, o mesmo acontecendo em adultos jovens com neoplasias do “tipo pediátrico”. 

A prática da Oncologia Pediátrica no Hospital de S. João remonta a 1982, nos “tumores líquidos”, a 1989 nos tumores sólidos e a 1991-2 nos tumores cerebrais quando fomos abordados pelos neurocirurgiões para lhes darmos apoio. A década de 90 correspondeu precisamente ao grande “boom” e desenvolvimento da quimioterapia no tratamento dos tumores cerebrais das crianças. Até aí os doentes eram operados quando era possível e ficava ao critério dos neurocirurgiões enviá- los ou não para radioterapia. Houve um esforço muito grande de desenvolver equipas multidisciplinares para o tratamento destes tumores e a co-locação de recursos foi determinante para o funcionamento destas equipas. Não se formam nem se diferenciam em meses ou mesmo alguns anos, mas para se destruírem basta apenas uma portaria ou decreto. 

O trabalho que desenvolvemos no Hospital de S. João, reconhecido por todos e a nível internacional, não se reproduz com a transferência de oncologistas pediátricos. Volto a dizer que a história das várias Unidades é própria e não reprodutível. É preciso é NÃO ESTRAGAR o que demorou tanto tempo e custou tanto sacrifício. Ninguém, mais do que os profissionais do HSJ, conhece as fragilidades. Ninguém, mais do que estes profissionais, alertou para os terríveis inconvenientes em tirar a Pediatria da área física do hospital e dos problemas de segurança que isso iria trazer. Ninguém, mais do que eles, tem alertado para a imperiosidade de repor o apoio da Oncologia Pediátrica 24h por dia, como já existiu. 

A necessidade de Oncologia Pediátrica em presença física só é imprescindível onde não houver pediatras, cirurgiões pediátricos, neurocirurgiões ou cuidados intensivos pediátricos, contudo, é absolutamente necessária a oncologia pediátrica de prevenção. 

Há anos que lutamos pela melhoria das nossas condições físicas e de isolamento, também fundamentais para a segurança dos doentes, mas todos temos de reconhecer que é mais fácil consegui-las do que as equipas humanas multidisciplinares. Todo este problema foi intrincado com a polémica da localização do Centro Materno Infantil do Norte e com a necessidade de recorrer a “mecenas” para criar condições no Departamento de Pediatria do Hospital de S. João. Há vários serviços de adultos recuperados com dinheiros públicos, porque é que para a Pediatria foi necessário recorrer a mecenas? 

Os profissionais e as instituições não têm nada uns contra os outros, como por vezes se quer deixar subentendido, trata-se de pensar onde há melhores condições funcionais para a Oncologia Pediátrica no Norte. O modelo intermédio de divisão de algumas patologias, que se conseguiu há 10 anos, foi o que pareceu na altura possível e aceitável e inclusive as duas instituições, IPO e HSJ, estão empenhadas num único Centro de Referência de Oncologia Pediátrica no Norte. A história no Sul e no Centro é diferente e também nesses centros foram desenvolvidas as referidas equipas e tentam, ao seu modo e nas suas possibilidades, defender as suas virtualidades e colmatar também as suas fragilidades. 

A única coisa que peço é que não se aborde este problema com superficialidade, com leviandade e só para “inglês ver” e comunicação social relatar.

Não ficaria tranquila com a minha consciência se não viesse deixar este meu “grito de alerta” por quem, há quase 30 anos, sentiu sempre a ameaça de lhe tirarem as condições que precisa e com que sabe trabalhar, esgotando sempre a sua energia, que tanta falta faz em outros aspectos bem mais importantes.

Texto Redigido por Maria João Gil da Costa, Pediatra e Oncologista Pediátrica no Hospital de S. João
 
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